Resenha – Terra-pátria
por Thiago
em 02/07/14

 

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Hoje, dia 2 faço 30 anos e resolvi fazer algo um pouco diferente, apresentar um pouco do pensamento de um autor muito importante pra mim, que no caso não é de literatura.

Dia desses comprei um livro recente do Edgar Morin, lançado em 2012 pela Editora Sulinas, de título “Meus filósofos”, onde o mesmo fala um poucos sobre os pensadores que o inlfuenciaram (não apenas filósofos). Resolvi, influenciado por este livro falar um pouco sobre Morin, um pensador que me influienciou muito.

O problema está em escolher um livro dele pra resenhar, afinal ele tem tanto livro publicado que fica complicado escolher como apresentar o mesmo pra vocês. São tantos os assuntos trabalhados pelo mesmo, mas ficou mais conhecido no Brasil pelas suas teorias sobre educação, entretanto sua obra abarca muito mais que isso, girando em torno da teoria do pensamento complexo que se encontra pulverizada em diversos de seus livros, como o compendio de seis volumes denominados “O método”, porém decidi tratar de outra parte do seu trabalho, afinal isso seria muito difícil de resenhar escolhendo um livro só. Então decidi falar de outra teoria sua, que é a ideia que o mesmo tem e denomina de Era Planetária, também se encontra espalhada em vários de seus livros, mas se concentra no livro “Terra Pátria”, escrito em parceria com a sociólogo Anne Brigitte Kern, nele os autores esboçam um retrato do globo em que se aloja o ser humano e questionam as formas e o conteúdo desta sobrevivência.

Este livro está em sua sexta edição no Brasil, lançada em 2011 pela editora Sulina, porém vou deixar de falar do livro pra tratar de parte de seu conteúdo, a teoria de Edgar Morin denominada “Era plaanetária”

O principal objetivo desta parte do texto é compreender o que Edgar Morin denomina de era planetária e as implicações do termo. Buscaremos elucidar os desafios que a atual situação de crise planetária nos traz em relação à interpretação da religião no ocidente, de modo a termos uma melhor compreensão sobre o papel da religião na metamorfose da humanidade na era planetária.

Essa questão é muito pouco trabalhada pelos comentaristas morinianos, contudo é imperativa para uma reflexão que busca integrar a contribuição da religião na compreensão do homem na era planetária. A humanidade, de acordo com Morin, tem em suas mãos, pela primeira vez na sua história como espécie, a responsabilidade pela sua própria realização ou destruição e, isso, num âmbito planetário.

Assim, faz-se necessário entendermos em um primeiro momento o que seria a ideia de planetarização, qual sua diferença em relação à noção de globalização e mundialização. Morin nos afirma que o termo planetarização é entendido de maneira mais complexa do que a ideia de globalização:

 

O termo “globalização” quase sempre é utilizado para descrever unicamente a mundialização das dimensões econômica e tecnológica, embora muitos críticos tenham assinalado que a globalização seja uma dinâmica multidimensional, isto é: ecológica, cultural, econômica, política e social, tudo isso em mútua interdependência; ainda assim, não deixa de ser um tempo que pertence a uma visão unidimensional e redutiva do devir humano do planeta (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.63).

 Sendo assim, o termo globalização é sinônimo de mundialização, no sentido em que abarca um processo ou fato que engloba o mundo. Por outro lado, a planetarização se dá de maneira mais complexa, através de dois motores de mundialização: uma humanística e outra tecnoeconômica, financeira e tecnocrática.

A era planetária tem seu início no período das grandes navegações, começando juntamente com o tempo moderno:

Tentei conceber a era planetária. Essa noção emprestada de Heidegger, mas trabalhada a meu modo, é muito mais pertinente do que a de “tempos modernos”, à qual ela corresponde cronologicamente. Os tempos modernos partem da queda de Bizâncio em 1453. A era planetária começa em 1492, com a descoberta/conquista das Américas por Cristóvão Colombo e, pouco depois, com a circunavegação do globo por Vasco da Gama. A era planetária é a história da dominação, da submissão e da exploração de uma imensa parte do mundo pelas nações europeias. O fim do período colonial em 1975, com o abandono por Portugal de suas colônias, anuncia o novo período dito da globalização (MORIN, 2010, p.248).

Por intermédio das navegações, amplia-se o mundo conhecido. Descortinam-se novas terras, novos povos, há desenvolvimento do comércio marítimo, das trocas, não apenas trocas materiais, mas também culturais. Alcança-se também o ápice de um dos mitos da modernidade, a ideia de dominação do mundo pelo homem branco europeu o qual, através de um discurso civilizatório, demarca com violência o planeta, dominando povos ditos bárbaros, povos com outra cultura, outra compreensão de mundo. Ela se deu de forma mais incisiva com Américo Vespúcio e Vasco da Gama; a partir destes, as navegações carregam o propósito da dominação, colonização do mundo e não apenas de um comércio entre diferentes povos. Anteriormente aos movimentos de navegação da modernidade, outras civilizações guerreiras descobriram a Terra sem, contudo, globalizá-la:

Há fantásticos movimentos de conquista do mundo, grandiosos, mas efêmeros, marcados pelos nomes de Alexandre, Gengis Khan, Tamerlão (conquistador tártaro). Há grandes aventuras marítimas rumo ao desconhecido do fim do mundo, como a dos vikings, que já tinham chegado à América, mas sem saber, e talvez a dos ameríndios, que teriam chegado às costas da Europa, também ignorantes do que haviam descoberto. E há outros movimentos, os das religiões universais, que se dirigem a todos os homens e se desenvolvem da Índia ao extremo oriente (Budismo), da Ásia Menor ao ocidente (Cristianismo), da Arábia ao leste, oeste e sul (Islamismo). Os grandes deuses, porém, ainda são muitos provincianos e ignorantes do mundo, da Terra e do homem, cuja criação lhes é atribuída (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.66).

Desse modo, com diferentes propósitos e localidades no mapa, desenvolve-se a ideia do que veio a ser a era planetária. O processo de planetarização começou como uma forma de ocidentalização do mundo através das colonizações. O período das navegações trouxe a ideia de que todos os pontos do planeta podem ser acessíveis e formam uma unidade, um mundo, constituído de uma humanidade heterogênea, de culturas e crenças diferenciadas. Entretanto, a acessibilidade à Terra se processa por meio das armas e tecnologia da civilização europeia, as quais viabilizaram as navegações e a dominação dos povos. Assim “a era planetária se abre e se desenvolve ‘em’ e ‘pela’ violência, destruição, escravatura, exploração feroz da América e da África. É a idade de ferro planetária, na qual ainda nos encontramos.” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.69). A idade de ferro é o período existente graças às consequências da colonização do mundo pela Europa.

Voltamos aos três mitos da modernidade vistos nos capítulo anterior: progresso, felicidade e dominação do mundo. O preço na busca por tais mitos é a idade de ferro planetária, movida pelos quatro motores modernos: ciência, técnica, economia e capitalismo, uma via direcionada ao abismo.

Deparamo-nos, em decorrência, com um período que reduz o mundo, numa tentativa de dominá-lo, transformando-o em um objeto através da lógica do paradigma reducionista. Não pode, todavia, a planetarização ser entendida por meio do paradigma reducionista, uma vez que ela busca expressar a relação do ser humano com o planeta enquanto um lugar de complexidade.

Já a mundialização, em contraste à globalização da economia, configura um processo inacabado que consiste em uma dupla globalização: a tecnoeconômica e a humanista.

O desenvolvimento da era planetária não se processou apenas pela violência e dominação da Europa no resto do mundo. A mundialização se move por dois motores antagônicos, o motor da dominação e exploração do mundo, através de uma visão tecnoeconômica do mundo, e o motor das ideias humanistas.

São duas hélices mundializadoras complementares e antagônicas: a primeira começa com uma mundialização hegemônica de política colonial e hoje se manifesta como hegemonia econômica, financeira e tecnocrática. A outra mundialização inicia-se com uma autocrítica a partir do interior da própria civilização ocidental em expansão (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.68).

Pierre Teilhard de Chardin citado por Boff nos ensina:

A idade das nações já passou. Se não quisermos morrer, é hora de sacudirmos os velhos preconceitos e construir a Terra. A Terra não se tornará consciente de si mesma por nenhum outro meio senão pela crise de conversão e de transformação (CHARDIN apud BOFF, 2009, p.21).

Os seres humanos podem assim ser percebidos como a expressão de uma centralidade da Terra, onde a própria Terra passa a ser o personagem principal de sua história.

Como anteriormente indicamos, desde o início da era planetária, os temas do “bom selvagem” e do “homem natural” foram considerados como antídotos, na verdade muito frágeis, para a arrogância e o desprezo dos bárbaros civilizados. No século XVIII, o humanismo das Luzes outorga a todo ser humano um espírito apto para a razão e lhe confere uma igualdade de direitos. Ao generalizarem-se, as ideias da Revolução Francesa internacionalizam os princípios dos direitos do homem e do direito dos povos (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.72).

Começamos a reconhecer a unidade da espécie humana, em que todos, de etnias diversas, fazem parte de um mesmo conjunto. Mesmo que, na história da humanidade pós-iluminismo, algumas nações, e até mesmo etnias, se julguem superiores a outras. Como claro exemplo disso temos, no século XIX e início do XX, o imperialismo europeu para com o continente africano e parte do continente asiático:

No início do século XX, a Grã-Bretanha controla as rotas marítimas do globo e reina nas da Índia, Ceilão, Cingapura, Hong Kong, muitas ilhas das Índias Ocidentais e da Polinésia, Nigéria, Rodésia, Quênia, Uganda, Egito, Sudão, Malta, Gibraltar, ou seja, um quinto da superfície terrestre. Sob sua coroa, encontram-se 428 milhões de pessoas, um quarto da população mundial. Os países baixos possuem a Malásia, Java, Bornéus. A França ocupa a Argélia, Tunísia, Marrocos, Indochina e grande parte da África negra. O império Russo se estende na Ásia até o Pacífico, englobando populações turcas e mongóis. A Alemanha construiu para si um império de dois milhões e meio de quilômetros quadrados, povoado por 14 milhões de homens no sudoeste da África, em Togo, Camarões, Tanganica e na ilhas do Pacífico. A Itália apossou-se da Somália, de Trípoli e da Eritreia. A Bélgica apropriou-se do Congo; Portugal instalou-se em Angola e Moçambique. A China permitiu que os europeus lhe arrebatassem concessões territoriais em seus grandes portos e controlassem praticamente todo seu litoral, do Cantão a Tientsin, e teve de conceder instalações ferroviárias, vantagens comerciais e facilidades financeiras (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.70-71).

A globalização se deu de modo forçado, chegando, através das guerras, a um estupendo avanço da primeira hélice de mundialização. Tal hélice ganhará proporções maiores ainda com a primeira e segunda guerras mundiais. Traz à pauta a ascensão da Alemanha nazista, encabeçada por Hitler, que incutiu no movimento o ódio pela diferença étnica, mais especificamente para com o povo judeu, mas não se bastando neste. “Sua ideologia da superioridade da raça ariana desperta o imperialismo pangermanista e empurra a Alemanha nazista para dominar a Europa” (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.76).

As guerras nos mostraram e mostram o caro preço do mito do progresso. Afinal, o desenvolvimento da ciência nas mãos dos grandes estados nos trouxe armas de destruição em massa, como as bombas nucleares, a guerra fria, as armas químicas e biológicas.

Em meio a um mundo numa crise que envolve todas as nações, eis que nos vemos, ao longo de décadas, à mercê de nações com maior poderio econômico, como os Estados Unidos da América (EUA), que, antes de sua última e gravíssima crise econômica, encaminha-nos a proposta moriniana de adotarmos a Terra como pátria comum, como uma Terra-Pátria.

Em 1993, Edgar Morin, juntamente com Anne Brigite Kern[1], publica o livro Terra-Pátria, no qual enfatiza a necessidade de uma reforma do pensamento capaz de conceber as coisas em seu contexto e definir a comunidade de destino terrestre (CARVALHO, 2007, p.1). Propõe-nos assumir a Terra enquanto morada e, como uma sociedade-mundo, na qual os problemas globais ou supranacionais venham à frente das disputas de poder entre as nações.

A propósito, qual é o significado do termo Terra-Pátria?

Significa a matriz fundamental para a consciência e sentido de pertença que liga a humanidade com a Terra, considerada como primeira e última pátria. A pátria é o termo masculino/feminino que unifica nele o maternal e o paternal. Por isso, a ideia de Estado-Nação implica uma substância mitológica/afetiva extremamente “cálida”. O componente matripatriótico dá valor maternal à mãe-pátria, terra-mãe, para qual se dirige naturalmente o amor e por meio da qual é possível também a fraternidade, como base política para a reunião da diversidade de indivíduos e etnias num mesmo lar. Além disso, oferece a potência paternal ao estado (pai-patriarca) ao qual se deve obediência para assim conformar uma unidade política e institucional. A pertença a uma pátria dá lugar à comunidade fraternal de patriotas e de filhos da pátria ante qualquer ameaça externa (MORIN; CIURANA; MOTTA, 2003, p.87-88).

A proposta da Terra-Pátria se concretiza via paradigma da complexidade, visto que o mesmo nos permite enxergar a policrise em que nos encontramos como planetária.

O grande impasse em meio a essa crise pode ser entendido como o conturbado relacionamento das duas hélices de mundialização, as quais, de modo paralelo, evoluem. As ideias humanistas se desenvolvem como contraponto à mundialização de dominação.

Assim, Morin nos aponta que a semente, que tem em si potência para ser uma Terra-Pátria, existe e se encontra na hélice de mundialização com caráter humanístico, semeando ideias de liberdade e igualdade entre os seres humanos.

Não obstante, e ainda sob a convicção do autor, nos encontramos na idade de ferro planetária. A teoria de uma Terra-Pátria, conclui-se, seria a via proposta por Morin para sairmos da idade de ferro. Tal teoria paira na incerteza de um futuro, no campo do mistério.

Morin, em suas teorias, tende à polêmica. Pode-se perceber esse traço em seu O método, na teoria do pensamento complexo, nas questões referentes à educação e sobre a Terra-Pátria. Mesmo com todas as teorias interligadas de modo a vislumbrar uma esperança em um futuro diferente, todas essas obras, de dimensão hercúlea, investem no campo da teoria.

O primeiro livro de O método, por exemplo, desvelou-se uma obra atípica e de difícil entendimento. O próprio paradigma proposto induzia a um acesso às teorias nele contidas, no qual propunha uma religação das ciências exatas, da natureza e humanas. Sobre a aceitação inicial de suas teorias, Morin nos diz: “Em diversas oportunidades, pude constatar que não desperto interesse, exceto em períodos de crise.” (MORIN, 2010, p.225). As crises nos levam a procurar saídas, aceitando o novo e o inesperado, por vezes até o misterioso, característico dos movimentos religiosos: “É verdade que a teologia negativa abre a porta ao Mistério, mas é Deus que é mistério. O mistério não é, para mim, a expressão de um Deus oculto. Ele afasta Deus. Apesar disso, sou altamente impulsionado na direção do mistério” (MORIN, 2010, p.346). As propostas morinianas, por muitas vezes, falam de um futuro e nos fazem caminhar na direção do incerto, do misterioso. Não que ele nos traga uma norma de conduta para fundarmos um futuro melhor; de fato, ele nos chama a atenção para futuros possíveis.

Boa leitura a todos!!

 

[1] Anne Brigite Kern: crítica de literatura e de ciências, produtora e redatora do programa Transversais Ciência/Cultura, da rádio France-Culture.

Edgar Morin, Château d'Orion, 2008 /Laurent LAFOLIE  /sc

 

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1 Comentário em “Resenha – Terra-pátria”


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jorge luiz bernardi em 16.04.2020 às 23:38 Responder

Terra-pátria e um livro extraordinário e a resenha acima expõe de forma clara e sucinta a dimensão desta obra que deveria ser estudada desde o ensino fundamental.


 

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