Resenha – Terra Sonâmbula
por Patricia
em 15/07/13

Nota:

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Mia Couto é moçambicano e amigo de Agualusa. Só isso já tinha me animado a ler seus livros porque li Teoria Geral do Esquecimento e decidi que 2013 seria o ano para conhecer mais sobre a literatura africana. Comecei com o pé direito com Agualusa, definitivamente, estabelecendo um nível bem alto. Portanto, tenho que ser sincera e admitir que minhas expectativas para Mia Couto estavam acima do normal.

Terra Sonâmbula tem um cenário similar a Teoria Geral do Esquecimento: aqui, ao invés de Angola, falamos do Moçambique pós a guerra pela independência e no meio de uma guerra civil cruel que parece não acabar nunca, onde “as residências duram mais que a vida dos homens”. Tuahir e Muidinga viajam juntos tentando ficar longe de problemas. Um dia, encontram cadernos com anotações dentro de um ônibus abandonado.

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Os cadernos pertencem a Kindzu e vamos lê-los junto com Muidinga: então temos uma história dentro da história; dois momentos da mesma guerra. No meio disso tudo temos aspectos do folclore local, uma pitada de fantasia e surrealismo em um enredo que poderia ser dramático e triste pura e simplesmente. Mas temos algo que vai além disso.

“[…] tinha que haver guerra, tinha que haver morte. E tudo era para quê? Para autorizar o roubo. Porque hoje nenhuma riqueza podia nascer do trabalho. Só o saque dava acesso às propriedades. Era preciso haver morte para que as leis fossem esquecidas. Agora que a desordem era total, tudo estava autorizado. Os culpados seriam sempre os outros.” 

Kindzu foi mandado embora pela mãe que perdeu todos os filhos e não quis ficar com o que ela menos gostava. Ele caminha sozinho na tentativa de se unir aos guerreiros que lutam pelo país – não se sabe exatamente de que lado. Encontra um navio naufragado e descobre que uma mulher – Farida – mora ali. Eles desenvolvem um tipo de relacionamento que deixa Kindzu perdido: ele não sabe se deve sair de novo em busca de seu destino ou se fica ali com ela.

Tuahir e Muidinga enfrentam a terra seca, esturricada, sem vida e para companhia, usam as palavras deixadas por Kindzu. Eles estão em momentos diferentes mas viajam juntos com as histórias do último servindo de conforto e escape para os primeiros em uma país em que era difícil saber quem estava ali para te ajudar ou te machucar – e todos eles tiveram experiências com os dois tipos de gente.

A escrita de Mia Couto é lindíssima e ele se utiliza muito bem de palavras típicas locais para trazer um gostinho diferente para o leitor (no final do livro tem um glossário para ajudar). Você tem a distinta sensação de compreender a cultura local sem quase nunca ter ouvido falar do país.

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A Guerra civil em Moçambique durou 16 anos e o número de mortos é estimado em 1 milhão. O país continua instável politicamente, imerso em fome e, no começo desse ano, notícias surgiram alertando sobre o temor das Nações Unidas de que uma nova guerra civil aconteça na região. O título do livro está ligado a toda essa instabilidade que simplesmente não permite que Moçambique descanse. O país parece viver um constante fluxo de problemas que são profundos demais para serem resolvidos levianamente. Definitivamente, o título do livro é uma das melhores descrições para a África, no geral, que já vi.

Recomendado forte!

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2 Comentários em “Resenha – Terra Sonâmbula”


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Katia em 17.07.2013 às 07:00 Responder

Sempre com estilo. É disso que as vezes sinto falta em algumas resenhas….

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Maria da glória da silva Tavares em 17.08.2015 às 11:45 Responder

Gsoto do seu título. Bastante sugestivo. Terra sonâmbula .É um continente que ainda está em estado de transe , vivendo três fazes .A áfrica pura e bela, cobiçada pelo mundo inteiro pela suas riquezas , culturas e tradições e sua oralidade. Segunda faze é a época do colonialismo, que eu chamo de exploradores. A terceira é o estado de transe, pra onde eu vou, quem sou eu , ainda posso sonhar, são parelos entre fábulas ,lendas ,realidade, sofrimento que é um tormento , eles os africanos querem ser eles mesmos com sua simplicidade, mas algo os tormenta . Nào os deixam viver , e vivem matar ou morrer para crescer. O Sr escrt.Mia Couto descreve em seus livros ,vamos continuar a ter esperança, sonhar , ele luta e leva as palavras aos lugares que todos possam ler e não deixar a história da África acabar.


 

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