Resenha – Thank you for smoking (Obrigado por fumar)
por Patricia
em 16/03/15

Nota:

thank-you-for-smoking-fin-wb

Sarcasmo é uma arte aos meus olhos. Sarcasmo com uma mensagem poderosa de fundo, é uma obra prima. Há alguns anos vi o filme “Obrigado por fumar” e fiquei encantada. A maneira como a história é conduzida, os personagens desprovidos de moral e compaixão; os diálogos insanos e um enredo divertido garantiram boas risadas.

Eu não sabia que o filma tinha sido baseado em um livro na época e quando descobri, não perdi tempo em achar a obra. Comprei no Book Depository por menos de 5 dólares em uma daquelas promoções malucas dele. O livro tem uma versão em português  lançada pela Cia das Letras em 96.

A história é centrada em Nick Naylor, lobbista da indústria de tabaco. Seu emprego, claro, apresenta desafios consideráveis. Em meados dos anos 90, momento em que o livro é narrado, as organizações anti-tabagismo estavam em polvorosa. Estudos ligando o tabaco com doenças fatais não paravam de surgir e Naylor trabalhava como nunca. Parte de suas tarefas envolvia encontrar brechas e desacreditar os estudos, muitas vezes questionando os dados, a metodologia de pesquisa e/ou o estudioso. Pura classe.

O que acaba resultado na maior desgraça de Naylor é justamente algo do qual ele se orgulha: o quão bom ele é no seu trabalho. Ele pode estar ao lado de uma criança com câncer de pulmão e ainda conseguir tirar da indústria do tabaco uma parcela da responsabilidade pela doença. Naylor acaba chamando a atenção de um grupo de terroristas que pretendem vingar as pessoas que morreram graças ao tabaco.

Ele é sequestrado e recebe uma dose cavalar de…..nicotina. Overdose de nicotina para o homem do tabaco.

Naylor sobrevive, atrai ainda mais atenção da mídia e quase vira um herói da indústria do tabaco. Quando o FBI entra na conversa, o jogo muda muito de figura. O FBI acredita que toda essa história de sequestro tenha sido uma grande jogada de marketing de Naylor para conquistar a compaixão do público e colocar a indústria do tabaco como vítima de mentes malignas terroristas. Naylor começa a ser investigado e vai descobrir bem rápido que não pode depender muito de seus empregadores.

A história é construída com comentários satíricos sobre diversas indústrias. Naylor é grande amigos de Polly – lobbista da indústria de bebidas alcóolicas – e de Bobby – lobbista da indústria de armas de fogo. Juntos, eles se auto-denominam o MOB Squad – algo como Esquadrão dos Mercadores da Morte. Quando querem mostrar a importância de suas respectivas indústrias, eles comparam o número de mortos por ano de cada uma. Tabaco tende a ganhar de lavada.

A ironia e o sarcasmo no livro são diluídos, mas o leitor teria que ser muito obtuso para não perceber que tudo ali é uma sátira bem elaborada e cuidada para passar a mensagem central: tem drogas e tem tabaco. E tabaco tem efeitos danosos como certas outras drogas, mas ganhou um passe livre graças a uma ação intensa da indústria em glamourizá-lo. Quem já assitiu filmes antigos sabe do que estou falando, é difícil encontrar um personagem que não fumava. Até mesmo o cowboy da campanha da Marlboro foi uma maneira de glamourizar o ato de fumar. Aliás, no livro, o cowboy de uma campanha de cigarros está morrendo. De câncer. E virou porta-voz do movimento anti-tabagista.

Aliás recomendo muito o documentário The Century of Self – que fala sobre Edward Bernays e seu papel na nova onda de consumo. Tudo começou porque a indústria do tabaco percebeu que estava perdendo metade do mercado e contratou Bernays para uma tarefa que parecia extremamente difícil: fazer com que as mulheres se interessassem pelo cigarro. Esse é um bom estudo de caso para estudantes de marketing já que Bernays, que era sobrinho de Freud, influenciou muito as campanhas de consumo que vemos até hoje.

No livro, Buckley deixa muito claro a facilidade que essas grandes indústrias têm de burlar leis com retórica e muitas, muitas, muitas doações para campanhas políticas comprando o apoio de senadores e deputados para suas “causas”. Nem mesmo a mídia passa incólume apesar de não ser exatamente o foco do autor. Temos uma jovem repórter capaz de tudo, até de mentir para conseguir um emprego em um grande jornal de Washington.

O autor já escreveu diversos outros livros, sempre sátiras políticas – tendo ele mesmo trabalhado em Washington. Até onde pesquisei, apenas o Obrigado por fumar foi traduzido. Vale a pena conhecer essa obra. Acredito mesmo que seja uma primazia do sarcasmo e levanta pontos excelentes de consumo cego, manipulação e vício.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Thank you for smoking (Obrigado por fumar)”


 

Comentar