Resenha – The Underground Railroad: Os caminhos para a liberdade
por Patricia
em 18/07/18

Nota:

O nome de Colson Whitehead apareceu no meu radar quando ele comentou em entrevistas sobre sua viagem ao Brasil aos 24 anos e como isso moldou sua idéia de escritor. Whitehead estava promovendo seu livro, vencedor do Pulitzer 2017, The underground railroad: Os caminhos para a liberdade, lançado no Brasil pela Harper Collins em meados do ano passado. O autor estará, ainda, na Feira Literária de Paraty, FLIP, desse ano.

A resenha pode conter spoilers se você ainda não leu o livro. 

“Caminhos para a liberdade” fala sobre escravidão. O livro começa com a história de Arrajay, jovem africana que foi roubada de suas terras junto com sua família para se tornar escrava no Novo Mundo. Com seus pais mortos, a jovem foi vendida inúmeras vezes até chegar na fazendo que ficaria até o fim de seus dias. Ali, sua filha e neta também nasceriam escravas.

Mabel, filha de Arrajay, nasceu escrava e era famosa na fazenda Randall por ter sido a única escrava a fugir e não ser pega. Era comum que escravos tentassem fugir e mais comum ainda que fossem capturados e levados de volta à fazenda à qual pertenciam e açoitados para que servissem de exemplo aos demais. Uma das profissões em alta na época era de caçadores de escravos. Às vezes andando em grupos, às vezes sozinhos, esses homens recebiam a incumbência de capturar escravos que fugiam e trazê-los de volta aos seus donos – vivos ou não, dependendo do que o dono queria.

Ao fugir, Mabel deixou para trás sua filha, Cora, que tinha apenas 10 anos. Cora, que também havia nascido escrava, acabou se criando sozinha enquanto carregava a decepção por ter sido deixada para trás. A maior parte do livro vai acompanhar Cora e sua vida na Fazenda Randall – de sua tentativa de manter seu canto, enfrentando um dos escravos que queriam usar sua pequena horta como banheiro de seu cachorro até sua subjulgação por três escravos que tentavam lhe ensinar uma lição.

Cora sobrevive mas tem poucos amigos e seus dias na Fazenda são cinzas. Até a chegada de César que, ao lhe conhecer, propõe algo louco: uma fuga para o Norte – onde estavam os Estados Livres. César ouvira falar de uma ferrovia subterrânea que ajudava negros a fugirem há décadas. Eles só precisariam chegar até o ponto de embarque e fugir para sempre dali.

Cora aceita e ela e Cesar fogem. Em seu encalço sai também um dos maiores caçadores da região. O que vamos acompanhar é como a vida de todos vai se cruzar em momentos intensos e como a liberdade é viciante.

A ferrovia subterrânea que Whitehead cita é a manifestação de algo que existiu em teoria, apenas. Os escravos criaram, sim, uma rede de apoio para aqueles que queriam fugir e chegar até o Norte, mas não era algo paupável. Era uma rede que envolvia muito mais apoio como “esconder os fugitivos dos caçadores” do que uma ferrovia de fato. A ideia de Whitehead, porém, é intrigante e é impossível não pensar “e se…” em alguns momentos.

Outro ponto importante que o autor ressalta muito bem é que quando escutamos que os estados do Norte dos EUA eram livres, é importante lembrar que a liberdade era lei, mas isso não significa que os negros estavam blindados de preconceito – a fundação do que vemos até hoje em países escravistas. De fato, na Carolina do Norte, Cora descobre que há toda uma rede médica que pretende esterilizar negras livres.

O tema é pesado e não há como ler o livro sem sentir o impacto da História e Whitehead não permite que o leitor esqueça isso em momento algum:

Ela vira homens pendurados em árvores, deixados ao relento para urubus e corvos. Mulheres escarnadas até os ossos pela chibata. Corpos vivos e mortos sendo queimados em piras. Pés cortados para evitar fuga e mãos decepadas para cessar o roubo. (pág. 43)

Corpos roubados cultivando terra roubada. Era um motor que não parava, sua fornalha faminta alimentada com sangue. (pág. 126)

“A escravidão é uma maldição, isso é verdade.’ A escravidão é um pecado quando brancos eram colocados na canga, mas não quando se tratava de africanos. Todos os homens são criados iguais, a menos que decidamos que você não é um homem.” (pág. 191)

Ver correntes em outra pessoa e ficar feliz de que não fossem suas – essa era a boa fortuna permitida às pessoas de cor, definida por quão pior as coisas poderiam ser a qualquer momento. (pág. 228)

“E a América também é uma ilusão, a maior de todas. A raça branca acredita – acredita do fundo do coração – que é direito dela tomar a terra. Matar índios. Guerrear. Escravizar seus irmãos. Se há qualquer justiça no mundo, esta nação não deve existir, pois suas fundações são assassinato, roubo e crueldade. E no entanto aqui estamos.” (pág. 297)

Quando o tema é um tanto discutido, sempre me pego pensando o que de novo pode ser tratado. Apesar de termos diversas obras sobre a escravidão nos Estados Unidos (e quase nada sobre o Brasil, por que será?), Whitehead – utilizando-se da rede clandestina de apoio – consegue trazer algo de novo e inexplorado antes. Só isso já vale a pena a leitura.

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