Resenha – Últimas palavras
por Patricia
em 07/03/17

Nota:

 

Hitchens foi durante toda sua vida uma voz ativa contra muitas coisas sendo a principal a religião organizada. Aqui no Poderoso já falamos de outras duas obras suas: Hitch-22 sua autobiografia e Cartas a um jovem contestador – cujo título é auto-explicativo. Um retórico fenomenal, Hitchens sempre se disponibilizou a debater e a argumentar com quem estivesse preparado. Poucos pareciam estar à sua altura.

Em ‘Últimas palavras’, Hitchens segue a mesma linha “franco-atiradora” de seus trabalhos anteriores mas o tema é bem mais pessoal: em 2010, ele descobriu que estava com um câncer agressivo no esôfago e que já havia se espalhado para outros órgãos. O câncer já estava no quarto estágio e, como o próprio autor nos lembra, não existe um quinto. Na obra, Hitchens aproveita seus momentos de lucidez para não apenas dividir seus pensamentos sobre a doença e seus efeitos, mas também para falar sobre como as pessoas acabam por reagir a um doente.

Sem perder o estilo ácido e direto, ele também aproveita para alfinetar religiosos que entraram na Justiça para proibir pesquisas em células embrionárias que poderiam ter levado a revelações importantes da cura de várias doenças, o câncer entre elas. Sem auto-piedade ou comiseração, Hitchens divide conversas com amigos e desconhecidos. Ele também comenta sobre os religiosos que diziam que seu câncer é uma resposta de Deus ao seu ateísmo. O que é interessante, porque isso confirma o comentário do autor de que um Deus vingativo dessa forma não se alinha ao Deus benevolente que esperam que seja. Afinal, raiva e desejo de vingança não são sentimentos fundamentalmente humanos? Que tipo de Deus prega o perdão…a menos que você faça algo contra ele? Essas são questão que Hitchens sempre levanta e muitos cristãos parecem confirmar que nunca pensarem realmente sobre isso.

‘Últimas palavras’ é um livro curto – 89 páginas – e se pode ler de uma sentada, ainda que o tema geral da obra seja, como não poderia deixar de ser, deprimente. Porém, este não é um livro recomendado aos não iniciados em Hitchens – muito porque é preciso já ter um conhecimento prévio de sua ironia e opiniões para que algumas passagens não percam o teor de humor negro que o autor possui. Ainda tenho que ler a grande obra dele – Deus não é grande – mas lendo os livros citados no começo desta resenha, já se tem uma boa idéia de quem era Hicthens e suas opiniões sobre os assuntos mais espinhosos que ele nunca deixou de abordar.

Apesar da qualidade de Hitchens e da prova de que ele manteve suas posições e seu senso de humor até o final, ‘Últimas palavras’ não é um livro essencial proque o autor não teve tempo de terminá-lo ou talvez fazer uma revisão final. Há alguns trechos repetitivos e é visível que Hicthens tinha muito mais para dizer mas o livro ficou inacabado. Para nossa sorte, Hitchens deixou outras grandes obras.

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