Resenha – Um cavalheiro em Moscou
por Patricia
em 17/08/21

Nota:

Vários memes atuais se referem a dificuldade de viver um momento histórico – a sensação de todo dia ser o mesmo dia mas que, no grande contexto das coisas, estamos vivendo uma pandemia histórica como não se via há 100 anos. É um espaço desconfortável para ocupar e, muitas vezes, nos escapa o impacto histórico que esses dias que parecem tão iguais podem ter. Esse é, também, o mote “Um cavalheiro em Moscou” que nos conta a história do Conde Aleksandr Rostov que vai de aristocrata a garçom nos anos seguintes à Revolução Russa que desmontou o czarismo.

O livro começa com o Conde sendo chamado para depor por conta de um poema publicado com seu nome e que foi interpretado como sendo anti-Revolução. Por conta disso, ele é condenado a prisão domiciliar perpétua. Ele passa a viver, então, no Metropol – hotel 5 estrelas conhecido, no passado, por seus grandes bailes aristocratas. Aos 30 e poucos anos, o Conde tem a vida inteira pela frente a ser vivida entre aquelas quatro paredes. O Metropol, aliás, é real e até hoje segue como um dos hotéis mais bonitos da Rússia, talvez da Europa.

É ali que o Conde encontrará figuras históricas e mundanas que mudarão sua vida. Os funcionários do hotel se tornarão sua família e alguns hóspedes, incluindo um gato safado, terão impactos inesperados. Assim, de 1922 a 1954, o Conde é o fio condutor da história da Rússia. O Metropol sofreu com decisões bolcheviques (em algum momento, os camaradas decidiram que todos os vinhos deveriam ter os rótulos retirados e vendidos pelo mesmo preço) e recebeu visitas da Cúpula do Partido que discutia os temas mais importantes da nação.

Ali, o Conde (e por extensão a Rússia) vai confrontar toda sua criação, sua História e seu inevitável desmoronamento. Usar um personagem para nos guiar por esses caminhos cria uma conexão forte tanto com o Conde quanto com o que se passa fora do Metropol. Uma escolha acertada de Towles que parece gostar de romances históricos já que seu romance de estréia, “Regras de Cortesia”, que retrata a queda de um magnata com a quebra da Bolsa de 1929.

Apesar do tema sério, a história é contada com certa leveza justamente porque o Conde é impactado pelos acontecimentos políticos mas não é uma pessoa política, então ele não passa muito tempo debatendo o que acontece e simplesmente lida com a situação como ela aparece. Isso também retira um pouco de julgamento da História e resta ao leitor interpretar como positivo ou não os acontecimentos descritos. Do jeito que eu gosto.

Em alguns momentos, a história pode ficar menos interessante e até repetitiva, mas ainda é um livro de leitura rápida (considerando suas mais de 450 páginas) dado a rapidez com que os anos passam, as mudanças constantes que eles trazem e o humor que aparece quando menos esperamos. Além disso, a atmosfera criada pelo Hotel reverbera por cada página transformando o Metropol em um personagem que marca a passagem a o impacto do tempo tanto quanto o próprio Conde. Tudo isso é receita certa para o sucesso e o livro, que foi recomendado até por Bill Gates, vendeu mais de 1 milhão de cópias só nos Estados Unidos.

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