Resenha – Um Exu em Nova York
por Juliana Costa Cunha
em 28/04/21

Nota:

“Andarilho, mensageiro, comunicador, afeito à política. Senhor das contradições e dos caminhos, Exu anda com as palavras, anda nas palavras, anda pelas palavras, anda as palavras. Por viver (n)as palavras, como vive (n)as ruas, (n)as encruzilhadas, (n)os caminhos, Exu as tem como ferramentas para fazer mundos, encontros e memória. A memória não é só feita de imagens, ela é erigidas em palavras, que se modificam e modificam quem as ouve, quem as lê, quem as escreve.”

Eu já tinha curiosidade de ler Cidinha e mais especificamente este livro. Antes de mais nada por conta de seu título, no mínimo curioso para mim que sou uma mulher branca e sem nenhuma vinculação com qualquer religião. Foi então que o @leiamulheresrecife indicou ele como leitura de março e vi ali a oportunidade de ler e conversar sobre o livro.

A minha leitura foi um tanto quanto curiosa. Tinha comprado o E-book e sou uma pessoa que não lê prefácios ou introduções, na medida em que é indicada sua leitura. Já levei tanto spoiler que hoje em dia leio depois que termino o livro. Mas com este, eu li antes. Quer dizer, não antes. Eu já havia começado a ler o livro e me senti bem perdida na leitura e aí pensei… ‘vejamos o prefácio’. E o prefácio é lindo. Escrito pelo professor de filosofia da UNB Wanderson Flor do Nascimento. Nele não há spoiler, mas tem lá uma frase que diz “…as palavras de Cidinha da Silva nos enredam, nos convidando a fazer parte desses deslocamentos exúnicos, mergulhados em um convite lírico, transformador e ancestral (que é tudo junto!), a olharmos para nós e contarmos outras histórias sobre nós mesmas, que difiram daquelas que nos foram contadas sobre nossas dores, alegrias, desejos e encontros.”

E aí o que aconteceu é que parei de ficar tentando compreender expressões, referências a orixás e passagens muito próprias dos rituais das religiões de matriz africana que a autora imprime nos 19 contos do seu Um Exu em Nova York, que ganhou o Prêmio da Biblioteca Nacional em 2019 e foi editado pela Pallas. Outra coisa interessante na minha experiência de leitura e acredito que mais por ter sido em E-book, é que eu não sabia que o livro tem um glossário, que poderia me ajudar nessa compreensão mais apurada do texto. Mas, depois pensando melhor, é muito provável que se fosse um livro físico eu não tivesse ficado nesse vai e vem a cada passagem que não compreendesse. Primeiro por que não costumo fazer isso. Depois por que entendi que o livro, Cidinha, me convidava ao passeio e ao encantamento.

Um Exu em Nova York exalta a espiritualidade de matriz africana e tem Exu como seu principal personagem. Orixá, que eu aprendi com essa leitura, reflete o divino com o terreno. Simboliza a comunicação, a transformação e os caminhos percorridos e suas encruzilhadas. Entre outras coisas.

Os contos discorrem sobre questões de gênero e do amor entre mulheres com momentos de afeto e desejo. E fala também sobre a solidão que muitas vezes acompanha mulheres negras e lésbicas. Também nos fala das violências simbólicas ou o medo de mulheres andarem sozinhas nas ruas, por exemplo. Tratam também da intolerância religiosa contra o povo de terreiro, numa conversa sobre nossas ignorâncias a respeito do tema (ouvi a palavra glossário, aí?). Há ainda contos que nos convidam a pensar as politicas de Estado e sua higienização nos espaços urbanos.

Mas a despeito e todos estes temas densos e tensos, Cidinha nos escreve com um afeto quase palpável nas páginas de seu livro. Há contos belíssimos, com imagens tocantes e que nos convida a compreensão e à empatia. Eu me senti tocada por ele. E acho que é esta uma das intensões da autora com seus textos neste livro. É como se ela tivesse me dito que eu não preciso entender tudo, mas posso me emocionar, ter empatia e ser parceria na luta.

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