Resenha – Um teto todo seu
por Patricia
em 02/03/15

Nota:

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Conheço o trabalho de Virginia do que li em Profissões para mulheres e outros artigos feministas (resenha aqui e tem um revisitando aqui). Esse livreto me encantou de tal maneira, que saí procurando qualquer coisa da autora em não ficção. Tenho algumas de suas obras de ficção, mas ainda não li nada. Diversas pessoas me indicaram ‘Um teto todo seu’ como a grande obra de não ficção de Woolf.

Tenham paciência comigo nessa resenha. “Um teto todo seu” é um comentário social tão bem feito e tão bem explicado que fica quase impossível ser sucinta. Mulheres na literatura – e tudo o que vem atrelado a isso – é um assunto que me interessa muito e isso me deixou com a difícil tarefa de tentar resumir algo sobre o qual quero falar cada vez mais.

O começo de “Um teto todo seu” envolve Virginia tentando entender o tema ‘mulheres e ficção’. Ela buscou na literatura e na sociedade exemplos de como as mulheres eram vistas e retratadas na literatura e como isso não era exatamente o que acontecia na vida real. Ou seja, a mulher era um  ideal literário, escrita por homens em grande parte. A literatura escrita por mulheres tinha pouco peso e não era levada a sério. Além disso, a realidade das mulheres estava longe do que os escritores criavam:

“Assim, surge um ser muito complexo e esquisito. É de se imaginar que ela seja da maior importância; na prática, ela é completamente insignificante. Ela permeia a poesia de capa a capa; está sempre presente na história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real,  era a escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas das palavras mais inspiradas, alguns dos pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.”

Virgínia não fica, porém, apenas na questão de como a mulher é retratada. Em sua época, já existiam autoras que haviam publicados livros que causaram alvoroço, mas continuavam a ser exceção a uma regra bem estranha. O que Virginia compreendeu era que o sistema ia muito mais a fundo do que apenas “poucas mulheres escrevem livros”. A verdade é que muitas simplesmente não tinham como arcar com suas responsabilidades sociais e dar-se ao luxo de designar horas do dia para escrever. Muitas dependiam do dinheiro do marido já que não podiam trabalhar e, com isso, eram limitadas ao que era autorizado ou não.

Esse é o grande ponto da autora: teríamos mais autoras se elas pudessem ser donas de seus próprios recursos. A própria Virgínia explica que ela pôde se dedicar à literatura graças a uma herança que recebeu de uma tia distante. Suas preocupações financeiras eram mínimas. Sua vida estava organizada para sempre. Escrever podia ser um ato de paixão sem custo, sem regras e sem preocupações de dar resultado ou não. A maioria das mulheres não tinha essa opção pois a sociedade não via com bons olhos mulheres que trabalhavam fora de casa ou saíam do papel determinado de “dona de casa e mãe”.

Mais a fundo, Virgínia ainda analisa a questão de dinheiro e poder de maneira objetiva e, note, sem se utilizar dos artifícios de gênero. Ela coloca sua posição sem panfletagem ou alguma necessidade de apontar culpados específicos. Ela reconhece que todos os homens são beneficiados pela estrutura vigente do patriarcado (assim como brancos são beneficiados pelas estruturas racistas) mesmo que nem todos compactuem com isso. Essa questão de “reconhecimento de privilégios” aliás, é um tema debatido até hoje. O comediante Chris Rock colocou a questão de maneira brilhante em uma recente entrevista. Parafraseando: privilégios de raça são como a herança dos seus pais. Você não trabalhou para construí-la, mas sendo justo ou não, ela ainda é sua. (Pontos extras por juntar Virginia Woolf e Chris Rock no mesmo post? Hein? Hein?)

“Os ricos, por exemplo, ficam bravos com frequência porque desconfiam que os pobres querem se apoderar de sua riqueza. Os professores, ou patriarcas, como talvez seja mais apurado chamá-los , devem estar em parte com raiva por essa razão, mas em parte por causa de algo que se encontra um pouco menos óbvio à vista. É possível que eles não estejam com raiva, no fim das contas; com frequência, é verdade, eles estavam admirando, devotados, amostras de relações da vida privada. É possível que, quando o professor insistiu de forma um pouco enfática na inferioridade das mulheres , ele estivesse preocupado não com a inferioridade delas, mas com sua própria superioridade. Era isso que ele estava protegendo de maneira um tanto destemperada e com tanta ênfase, porque era para ele uma jóia do mais raro valor. A vida para ambos os sexos – e olhei para os dois, acompanhando o caminho deles pela calçada – é árdua, difícil, uma luta perpétua. Requer coragem e forças gigantescas. Mais que qualquer coisa, talvez, criaturas de ilusão como somos, ela requer confiança em si mesmo. Sem autoconfiança, somos como bebês no berço. E de que modo podemos adquirir essa qualidade imponderável, que também é tão inestimável, o mais rápido possível? Pensando que as outras pessoas são inferiores. Sentindo que temos uma superioridade inata – pode ser riqueza, status ou o nariz perfeito; os artifícios da imaginação humana não tem fim – sobre os outros. Por isso a enorme importância para o patriarcado de ter de conquistar, governar, de achar que um grande número de pessoas, metade da raça humana, na verdade, é por natureza, inferior. Deve ser realmente uma das principais fontes de seu poder.”

A autora, porém, não diz que só pode escrever quem tem dinheiro, necessariamente. O domínio do recurso é importante, mas a compreensão da sociedade e o respeito pela obra, também. Ela cita o exemplo de duas poetisas aristocratas. Ambas tinham dinheiro e posição social, mas suas poesias eram ridicularizadas por serem mulheres e dependentes. Se dinheiro traria tranquilidade, apenas a independência de como gastar e gerar esse dinheiro daria liberdade. E, ainda assim, a sociedade poderia duvidar da qualidade do material baseado no gênero de quem escrevia. Ser mulher parecia ser quase uma praga.

Depois que li este livro de Woolf, li “Eu sou Malala” e ali está a triste realidade que faz com que Virginia não tenha perdido nem um eco no último século: quase 100 anos depois do discurso de Woolf que falava de patriarcado e sociedades que desrespeitam a mulher, Malala relata sua história de ser alvo da milícia paquistanesa por ser uma menina tentando estudar. Um século e tudo ainda me parece muito igual em algumas partes do mundo. Um século e um livro como “Faça acontecer” tem sentido porque mesmo com algumas conquistas, ainda há muito o que fazer.

“Um teto todo seu” tem um pouco de ficção e divagações de Woolf, mas essa edição também conta com um posfácio da autora Noemi Jaffe que sintetiza muito bem e de maneira objetiva tudo o que Woolf coloca. No mais, um livro que me deu muito o que pensar, reavaliar e me deu ainda mais vontade de ler outras obras da autora. Entrou para a lista de preferidos e pretendo reler as partes que marquei de vez em quando, tal qual pretendo fazer com Bad Feminist.

Excelente, no mínimo.

Aqui você pode fazer o download do livro em pdf de uma edição antiga.

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2 Comentários em “Resenha – Um teto todo seu”


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Luciana em 25.05.2019 às 18:00 Responder

Olá! Amei a resenha. Estava procurando inspiração para iniciar a leitura do livro e encontrei.👏
Obrigada!

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Patricia em 25.05.2019 às 18:14 Responder

Ai meu Deus!!! Que comentário maravilhoso!! Depois conta o que achou do livro. 😀


 

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