Resenha – Vida após a morte
por Patricia
em 03/08/15

Nota:

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Conheci a história de Damien Echols quando assisti aos documentários sobre sua prisão. Paradise Lost é uma trilogia de Joe Berlinger and Bruce Sinofsky: filmado por um período de 18 anos, os diretores acompanham a história de Echols e dois amigos (um deles com apenas 16 anos) que, em 1993, são acusados de assassinar 3 meninos na região de West Memphis no Arkansas. O julgamento ficou famoso na época pela falta de estrutura da polícia e pela maneira como as “provas” contra os 3 adolescentes que estavam sendo julgados foram apresentadas. Uma confissão feita à base da tortura psicológica fez com que 2 fossem condenados à prisão perpétua e Echols à morte.

Durante o julgamento ele foi retratado como um líder de uma seita satânica que havia usado os três meninos como sacrifício para seus rituais demoníacos. Em grande parte porque Damien usava apenas roupa preta, ouvia muito metal (ele cita Iron Maden e Metallica mais de uma vez) e tinha poucos amigos. Além de ser pobre. O conjunto da obra para a polícia do Arkansas era, obviamente, uma seita liderado por um menino perturbado. Essa narrativa criada pela promotoria teve um papel crucial no resultado do julgamento. Na falta de provas, sobraram especulações

Foram 18 anos de apelações e apresentação de novas provas até que o Estado entendesse que havia cometido um terrível erro (ainda que se recusasse a assumí-lo). Os documentários são fantásticos e nos apresentam o caso pela ótica dos familiares das vítimas, dos presos e da polícia apontando logo no começo um erro que demoraria muito mais do que o humanamente suportável para ser corrigido. No Netflix, está disponível West of Memphis que também fala do caso mas não com a mesma qualidade de Berlinger e Sinofsky.

O caso foi tão falado que chamou a atenção de nomes como Johnny Depp, Peter Jackson e Eddie Vedder que não apenas se juntaram ao coro pela libertação dos presos como se tornaram amigos pessoais deles – principalmente de Echols.

Além dos documentários, meu interesse pelo caso se intensificou depois que li O inocente de John Grisham – primeiro livro do autor a tratar de um caso real. Passei a procurar casos similares e encontrei os documentários sobre o West Memphis 3.  (Na resenha do livro do Grisham comento um pouco mais sobre os documentários).

Então, já inteirada do caso, resolvi ler a biografia de Echols, bem intitulada de Vida após a morte.

No livro, Echols compila trechos de diversas fontes: alguns parágrafos escritos em um diário durante a prisão, algumas divagações em seus dias mais longos e até algumas histórias sobre sua infância em capítulos de pura recordação nostálgica. Justamente pela diversidade de fontes, algumas sequências podem ser confusas. Em um parágrafo ele está falando o que pensa de sua mãe para depois nos contar sobre como ele era na escola e fechar o capítulo falando exatamente o contrário do que tinha dito antes sobre a mãe.

No começo, a leitura flui de maneira um tanto quanto morna, mas melhora consideravelmente depois que Damien já tem idade para começar o relacionamento que vai mudar quase tudo. É possível aprender muita coisa sobre Echols que os documentários (que focaram apenas no caso e nas consequências) não falam. Sua infância extremamente pobre, o abandono de seu  pai, sua relação com a religião e etc. Esses são pontos pouco ou nada comentados nos documentários que assisti e servem para trazer ainda mais contexto sobre quem era Echols de verdade.

O ex-preso não economiza nos detalhes e nem esconde seus preconceitos – em várias ocasiões ele comenta sobre o peso das pessoas, parece ser algo que ele nota e arquiva em sua mente. Palavras como obeso, gordo, amorfo estão por todo o livro e são usadas, normalmente, para descrever pessoas de quem Echols não gosta. Esse não é o único ponto negativo: há algumas repetições que podem tornar a leitura um pouco cansativa em alguns momentos e o uso casual e constante da palavra retardado também incomoda. Mas ainda restam coisas suficientemente boas para que a leitura seja, no geral, bem interessante.

Porém, se você não sabe muito bem o que aconteceu, recomendo fazer uma breve pesquisa antes porque Damien fala muito pouco sobre o caso em si. É uma aposta grande na possibilidade do leitor já saber quem Echols é. Talvez nos Estados Unidos isso seja tranquilo já que o caso foi debatido por quase 20 anos. Aqui, porém, o contexto é diferente. A edição brasileira se beneficiaria bastante de um prólogo em que o caso fosse apresentado, até para dar mais peso à experiência de leitura.

O livro vai um pouco além da simples biografia e explora um lado do “sistema” que ainda é muito debatido. Como pouco se faz para, de fato, alterá-lo, a história de Damien, infelizmente, não foi a primeira e nem será a última vez que um inocente foi preso – ou morto – pelas mãos de quem achava que estava atuando a favor da “justiça”.

***

Deram-me minhas roupas e mandaram que eu me vestisse. Se você nunca teve de usar uniforme de penitenciária, não vai entender o que é finalmente poder vestir suas roupas de novo. Você demora um pouco para se acostumar. O uniforme da prisão é concebido para nos privar de qualquer identidade e nos reduzir a um número. Quando o usamos, nem sequer nos sentimos como seres humanos. Não temos dignidade. (pág. 167)

Quando criança, ensinaram-me na escola que viver nos Estados Unidos nos dá automaticamente o direito a certas liberdades; porém, conforme fui crescendo, deparei com a dura realidade. Aqueles policiais podiam me parar em qualquer momento, em qualquer lugar, e fazer exigências que não me deixavam outra opção a não ser obedecer. Embora eu não estivesse fazendo nada de errado, era obrigado a dizer aonde estava indo, de onde era e qualquer outra informação pessoal que me pedissem, tudo porque não gostavam da minha aparência. A única liberdade que eu tinha era obedecer ou ir para a cadeia. Nunca me ensinaram isso na escola. (pág. 193).

Fico enojado ao pensar que o público confia nessas pessoas, que são responsáveis por defender por lei, mas torturam jovens deficientes mentais. As pessoas neste país acreditam que os corruptos são exceção. Não são. Qualquer um que já precisou se envolver profundamente com eles sabe que os corruptos são a norma. (pág. 232)

As expressões ‘sem sombra de dúvida’ e ‘inocente até que se prove o contrário’ desapareceram. Depois que eles se dão ao trabalho de montar uma acusação e decretar sua prisão, você será condenado, a menos que tenha alguns milhões de dólares em mãos para contratar sujeitos com chumbo grosso para ajudar em sua defesa. Mas naquela época eu era tolo. Ainda inexperiente. Achava que o propósito do sistema judiciário era garantir que a justiça fosse feita. É assim que acontece na TV. Enquanto contava com uma intervenção divina, eles tramavam o meu fim. (pág. 240)

Uma pessoa pode morrer de fome na prisão, e não falta de comida. Estou falando do esmaecimento e da morte do espírito humano por falta de decência ou de amor em relação aos seus semelhantes. Os comentaristas da televisão projetam a imagem de prisioneiros como animais, o que é verdade. É verdade porque o espírito que os mantinha humanos foi definhando até morrer e eles se tornaram um buraco negro sob forma humana. (pág. 389)

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