Resenha – Voltar para casa
por Patricia
em 13/06/16

Nota:

6fc9d040-1209-4a52-83e0-1ad7ddb59860

Toni Morrison é uma autora consagrada. Já foi chamada de a D.H Lawrence negra e suas obras abordam temas intensos relacionados a raça e gênero. Em 93, recebeu o prêmio Nobel de Literatura, mas acumula diversas outras premiações, incluindo um Pulitzer e uma Medalha da Liberdade – considerada a maior honra para civis nos Estados Unidos. Ou seja, sua biografia, por si só, já garantia meu interesse em seu mais recente lançamento: Voltar para casa.

A história começa com Frank Money – aos 24 anos ele é um veterano da guerra da Coréia. Frank já está de volta aos Estados Unidos há um ano, mas não encontrou sua casa ainda. Às vezes dorme na rua, às vezes depende da bondade de estranhos para conseguir sobreviver pelo dia. Sem dinheiro e sem uma casa fixa, Frank parece perdido em um limbo quando retorna a um país que defendeu na guerra, mas que continua tratando-o como cidadão de segunda classe. Estamos falando aqui da década de 50 – antes do movimento civil negro inflamar os ânimos em Washington e iniciar uma luta feroz nas ruas.

Frank está acostumado a buscar no álcool uma salvação para seus problemas e fugir de tudo aquilo que lhe parece muito complicado. Ele revive alguns traumas de guerra quase o tempo todo – principalmente a morte de seus dois amigos de infância que se alistaram junto com ele. Pobre de nascença e filho de pais pouco empáticos, desde pequeno ele era o guardião de sua irmã Ci.

Ci nasceu na rua, enquanto seus pais chegavam à cidade de Lotus, “a pior cidade do mundo, pior até que o campo de batalha”, de acordo com Frank. Depois de terem sido expulsos de suas casas em outra cidade por membros da Klan. Caminharam até sua nova casa porque não tinha outro jeito. Ao nascer na estrada, entre a expulsão e o não se sabe o que viria depois, ela foi vista como um bebê problema e cheio de mal agouros. Foram morar todos de favor com o avô de Frank e Ci cuja esposa os tratava mal.

Quando Frank foi para a guerra, Ci conheceu e fugiu com um jovem que acreditava gostar dela, apenas para ser deixada na cidade grande assim que ele conseguiu sumir do mapa. Sozinha, sem dinheiro e sem nenhuma noção de como se manter na cidade, ela busca emprego e vive de favor por algum tempo. Até começar a trabalhar para um médico que testava em suas enfermeiras diversos medicamentos criados por ele mesmo usando-as como cobaias humanas.

Acompanhamos os irmãos escorregarem na vida, tentarem levantar de novo e caírem novamente. Nada parece fácil ou claro no caminho de ambos. As coisas começam a melhorar quando Frank recebe uma nota da companheira de casa de Ci dizendo que ela vai morrer se ele não retirá-la de lá. É aqui que Frank e Ci encontram uma oportunidade para mudar suas vidas. Juntos, como sempre fizeram.

O conceito de “voltar para casa” é relativo e Morrison trabalha bem isso: para Ci, voltar para casa é encarar seus demônios infantis e retornar para a cidade que sempre odiou sendo curada pelas mesmas mulheres a quem julgou desde pequena. Para Frank, estar em casa era estar com sua irmã, a quem o via como um homem bom. Muitas vezes na guerra, Frank se questionou se era uma boa pessoa mesmo – e há um episódio em especial que mostra bem essa questão. Mas aos olhos de Ci, ele via o homem que ele não acreditava que fosse, mas que existia de alguma forma. É uma bela maneira de dizer que nossas casas são as pessoas que amamos muito mais do que o lugar físico ontem nos encontramos.

E, no fim, você sempre pode voltar para casa quando precisar.

A escrita da autora é belíssima e contida. Nenhuma cena parece ser criada sem motivo, todas se alinham bem ao resultado final. O cuidado que Morrison tem de construir a história, alternando cenas com revelações sobre os pensamentos de Frank forma uma moldura consistente para o desfecho.

Por ter um estilo mais de novela, com um ritmo de narração mais acelerada, o livro nos deixa com a sensação de que mais poderia ter sido dito sobre Frank e Ci. A situação de ambos não parece simples, mas é, de certa forma, tratada como se fosse.

Ao terminar o livro, sentimos certo vazio quanto ao que a história representa. A ideia é muito bonita, porém não é um tema novo nem uma forma inovadora de contar uma história como essa.

No geral, uma boa introdução a Toni Morrison, mas não encontrei a catarse que suas obras prometem.

***

O livro foi enviado pela editora. 

selo-parceiro_2016-320x230

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – Voltar para casa”


 

Comentar