Resenha – Wolf Hall
por Patricia
em 19/04/21

Nota:

Thomas Cromwell é uma figura marcante da história da Inglaterra, conhecido como um dos maiores arquitetos da reforma Inglesa que separou a Inglaterra da Igreja Católica – um escândalo na época.

Neste primeiro volume da trilogia de Thomas Cromwell – Wolf Hall – Hilary Mantel se dispõe a apresentar a vida dele desde o começo. Vamos a Putney, na periferia de Londres, no ano de 1500 quando o jovem Thomas apanhava de seu pai bêbado e violento. Ele conseguia fugir às vezes e se escondia no bar da irmã e do cunhado, mas o pai vinha buscá-lo e o espancava de novo. Em uma cena, ele bate com algum objeto de ferro na cabeça do filho que desmaia.

Aos 15 anos, Thomas decide sumir de casa e embarca para a Itália onde vai trabalhar com alguns banqueiros conhecidos. A Itália, na época, era o centro financeiro e religioso do mundo com o Papa sendo a figura central de poder da Europa. Ele também trabalhou no mercado têxtil da Holanda e, quando retornou para a Inglaterra, foi empregado pelo Cardeal Wolsey – braço direito do Rei Henrique VIII.

Há diversas histórias sobre Cromwell e Wolsey. Na serie The Tudors do Showtime, eles parecem ter uma relação mais de trabalho e não tão próxima. Em Wolf Hall, eles estão alinhados quase como irmãos. Cromwell parece admirar Wolsey e defendê-lo de injúrias.

Wolsey controlava grande parte das finanças do Rei e tinha inimigos que conspiraram para sua queda. Sem o Cardeal, havia um buraco de poder – e influência – que Cromwell assumiu com propriedade.

Quando Henrique VIII conhece Ana Bolena, a história tem um curso mais intenso. É aqui que ele começa a questionar seu casamento com Catarina de Aragão e o fato de que ela não lhe deu nenhum filho vivo parece ao Rei uma prova de que o casamento não é bem visto aos olhos de Deus. Ou isso é o que ele diz a todos já que Bolena o pressiona para casar. Porém, o divórcio era ilegal e contra Deus, dizia o Papa. E seria o Papa e seus representantes quem deveriam decidir se o que o Rei dizia era verdade.

Ao mesmo tempo, Lutero publicava textos em que acusava a Igreja de corrupção, de centralização de poder e de desvirtuar os ensinamentos bíblicos. Visto como herege, seu conteúdo estava rapidamente se espalhando pela Europa e chegou ao Rei Henrique VIII. Cromwell, de inclinações laicas, também trazia referências dos protestantes ao Rei. Afinal, que sentido havia ser Rei se nem se podia decidir sobre seu próprio casamento? O resultado disso já conhecemos: Mantel consegue trazer a tensão dos tempos para as páginas. Cada vez que abria o livro, era como se fosse transportada para a Inglaterra de 1500 que lidava com pandemias e miséria. As descrições são bem feitas e o leitor consegue imaginar toda a cena – do vinho e seu sabor ao tom fúnebre das velas que se usava para iluminação.

Outra construção bem feita, e que vemos até hoje, é o quanto a Igreja estava alinhada ao poder. Ao contrário da narrativa padrão, de que a Igreja mantinha o poder em cheque, ela era, e ainda é, legitimadora do poder político. É por isso que vemos candidatos a presidente que nunca falam de Deus indo a Igrejas às vésperas das eleições. Isso ainda é predominante em países em que a religião é vista como um componente social e não individual.

Na Europa de 1500, o Papa era o poder supremo, dignatário de Deus na Terra. Acumulados de riquezas em um território que pessoas morriam de fome. Outro Deus conhecido e predominante era o dinheiro:

O governo do mundo não está onde ele imagina. Não está nas fortalezas de fronteira, nem mesmo em Whitehall. O governo do mundo está em Antuérpia, em Florença, em lugares que ele jamais imaginou; em Lisboa, de onde os navios com velas de seda partes para o oeste e são tostados pelo sol. Não está nas muralhas do castelo, mas nas casas contábeis, não está nos chamados da corneta, mas no estalar do ábaco, não está no seco rangido das armas de fogo, mas no arrastar da pena sobre a nota promissória que compra a arma e a pólvora, e paga o armeiro. (pág. 317)

Mantel coloca todas as essas peças no tabuleiro de forma impecável. Sim, por vezes a leitura é lenta enquanto ela descreve tapeçarias ricas ou como o vinho era temperado, mas isso também ajuda a criar um contexto mais claro do mundo no qual somos inseridos.

A ideia de focar a história no ponto e vista de Cromwell é importante porque seu impacto na história é enorme mas pouco se sabe sobre o homem em si. Mas, claro, o livro é um romance histórico então mesmo Mantel preenche lacunas com sua própria imaginação. O livro foi publicado em 2009 e venceu o Booker Prize. O 2o volume Tragam os corpos já foi publicado no Brasil (e também venceu o Booker Prize quando publicado) e o 3o volume saiu lá foram em 2020 (e entrou na lista final do Booker Prize) e ainda não tem previsão para chegar aqui.

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