Revisitando – A poderosa chefona
por Gabriel
em 15/09/15

Nota:

A Poderosa Chefona

 

 

Sigo na minha missão de ler apenas obras escritas por mulheres em 2015 (com uma fila que já obviamente vai passar do final do ano). E quase todo mundo com quem converso sobre essa meta (principalmente mulheres) decide me recomendar seus preferidos. Foi assim que cheguei no livro de Tina Fey, que já esteve aqui no Poderoso nas mãos da Paty, lá em 2012 ainda em Inglês!

Tina é uma comediante americana vinda do programa Saturday Night Live, o maior celeiro de humoristas nos Estados Unidos. Tendo vindo de uma também renomada escola de improviso em Chicago, ela iniciou a carreira como roteirista de alguns quadros em 1997. E já a partir do ano seguinte estava sendo escalada para atuar.

O livro é uma autobiografia escrita num tom despretensioso, sempre com boas doses do estilo de humor americano que se encontra em programas como o SNL. Isso influenciou para que a minha avaliação tenha sido pior do que a da Paty – que leu em inglês, já que algumas das piadas soavam um tanto artificiais em português. Em alguns momentos a autora narra passagens engraçadas ou faz comentários que realmente valem por si; mas em outros minha impressão foi de que a piada soaria bem na sua língua original, mas não parecia natural traduzida.

Ainda assim, Fey se sai muito bem em aplicar o tom humorístico a passagens mais tristes de sua vida ou mesmo a tópicos como o machismo de hoje. Ao comentar sobre um workshop em que esteve com diversas mulheres, onde foi feita a pergunta “quando você se sentiu mulher pela primeira vez?” e a maior parte das respostas se referia a algum homem gritando algo de dentro de um carro, ela diz:

Eles são uma patrulha enviada para informar às meninas que chegaram à puberdade? Se forem, está dando certo.

E esta é uma amostra bem clara do tipo de ironia que a autora destila durante todo o livro. Em diversos momentos tive dúvidas quanto à veracidade do que estava lendo, mas ela toma o cuidado de avisar quando inventa alguma coisa (ou ao menos diz ao leitor que está avisando). Esta é a grande sacada do livro: Tina Fey consegue fazer a sua vida, que seria uma coleção de momentos normais de uma carreira de sucesso pontuados por picos realmente invejáveis de reconhecimento, encher quase 300 páginas e se manter interessante, graças a esse seu estilo.

A autora tem um razoável senso “prático” de feminismo, abrindo mão das palavras-chave (como “sororidade”) e narrando momentos em que de fato coloca em prática tais termos (como ao lidar com a candidata a presidência americana em 2008, Sarah Palin). Isso garante que seus exemplos possam ser assimilados por qualquer pessoa sem no entanto soarem impositivos ou vindos de um patamar moral elevado. E também que ela consiga narrar episódios como o do Modess no SNL sem odiar os mal-informados roteiristas – uma das melhores histórias do livro.

Apesar de ter considerado o livro digno de apenas 3 xícaras de café, o fiz principalmente pela questão do humor americano “mal encaixado” no português e porque em alguns trechos pensei em desistir da leitura, pois a autora parece se perder em um estilo “post de blog pessoal” que dá a impressão de querer apenas encher páginas. O que é curioso, porque alguns dos melhores momentos da autora são construídos quando ela se põe a falar de assuntos que de outra forma seriam dispensáveis: a passagem sobre o uso de Photoshop em fotos, por exemplo, é uma das que mais guardei.

Tina Fey mostra neste livro que não é só alguém que deu sorte em se parecer com Sarah Palin (vide jogo dos 7 erros abaixo), sua personagem mais famosa. É também uma escritora de talento e principalmente uma mulher com uma história de sucesso interessante. O livro não é indispensável, não é dos melhores que li este ano, mas vale para quem já deu muita risada com ela em quadros do SNL ou em 30 Rock (ou para quem dava risada com o Alec Baldwin).

 

Tina Fey e Sarah Palin

 

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