Revisitando – A resistência
por Bruno Lisboa
em 06/03/17

Nota:

De tempos em tempos, entre leituras inúmeras, sou pego de surpresa quando algum livro consegue me tirar do lugar comum, transformando o que seria entretenimento ou pesquisa num emaranhado de emoções indescritíveis que quase impossibilitam de explicá-las de maneira adequada. Por essas e outras confesso que escrever o texto que segue sobre A resistência, premiado livro de Julián Fuks, foi tarefa das mais difíceis. O livro já foi resenhado aqui no Poderoso antes pela Patrícia e ela afirmou ter tido um problema também em descrever este livro.

O enredo tem como cerne o próprio autor, um argentino radicado no Brasil, que decide rememorar lembranças relacionadas ao seu irmão adotado. Porém, a partir desta premissa simples Fuks faz de seu livro um autêntico manifesto em prol da busca pela própria identidade e de suas origens.

A história se inicia na década de 70, época que Fuks, ainda criança, convivia junto aos pais na cidade de Buenos Aires. Narrado em primeiro pessoa, o autor relata de maneira dolorosa as agruras da ditadura local, dando ênfase ao sofrimento vivido pelos progenitores (ambos psicanalistas) que estavam completamentos ligados a militância política e ao sentimento de não pertencimento a uma nação e governo que, diariamente, dizimava quem se opunha ao mesmo. Como solução emergencial, a família migra para São Paulo para reconstruir a vida e começar quase que do zero, deixando para atrás suas próprias origens.

À duras penas, Julián busca no decorrer da obra lembranças que foram apagadas pelo tempo. A sua maneira, sem se ater a uma linha temporal cronológica, o autor faz de sua escrita uma forma de redenção. No decorrer dos capítulos Fuks busca exorcizar erros cometidos no passado.

Dominado pela culpa, Julián conta como foi tortuosa a relação com o irmão adotado que vivia isolado, deslocado ante à família que não o compreendia. E é a partir desta reflexão que o autor imerge da micro para a macro visão adotando uma análise profunda do mundo, o que acaba por resultar em visões contundentes acerca da vida, que segundo o mesmo deve seguir em frente, mesmo que à duras penas.

A resistência é uma clara demonstração de que o fazer literário, ainda mais uma autobiografia, é tarefa das mais difíceis. Ainda mais quando este revirar de gavetas traz à tona lembranças que não lhe agradam ou não lhe competem.

De fato nem todo autor é capaz de fazer da dor algo belo e redentor, mas felizmente Fuks faz da mesma, força motriz trazendo à tona algo belo e digno, provando que acima de tudo vale a pena seguir em frente.

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O livro foi enviado pela editora.

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