Revisitando – Anarquistas, Graças a Deus
por Gabriel
em 07/09/15

Nota:

Anarquistas, Graças a DeusE lá vamos nós revisitar uma obra que já esteve aqui pelas mãos da Paty. O primeiro livro de Zélia Gattai me foi sugerido como parte do projeto de leitura de mulheres e apareceu no começo da fila de repente quando vi o livro na prateleira da casa de uma amiga.

Zélia Gattai foi esposa do escritor Jorge Amado, o que por si só já a credenciaria para entrar na história da literatura brasileira. Mas o papel de coadjuvante não foi o bastante e ela se dedicou a escrever esta obra, uma autobiografia que narra seus primeiros anos de vida em São Paulo.

No livro, Zélia nos mostra a vida de uma família de classe média na cidade que estava se formando. Uma São Paulo com pouquíssimos carros e onde as famílias menos abastadas viviam na Alameda Santos (hoje parte de um dos bairros mais ricos da cidade). Essa foi a rua que acolheu Ernesto Gattai e seus filhos, entre eles a autora.

Para quem conhece bem a cidade de São Paulo, a obra traz uma fascinante visão de como eram diferentes a vida e a dinâmica da metrópole antes de se tornar um gigante. A vida dos imigrantes italianos, tão presentes na história da cidade, também é mostrada de uma forma íntima, como se estivéssemos sendo vizinhos dos Gattai.

O estilo de Zélia é leve e sem rodeios excessivos. A história é narrada em primeira pessoa e dividida em pequenos capítulos que contam, cada um, uma pequena passagem ou conto. A leitura é simples e flui rápido. Em diversos momentos o leitor é envolvido sem perceber e quando se nota já está sentindo o que a garota Zélia ou sua mãe sentiam.

Em um primeiro olhar, não há uma grande narrativa em Anarquistas, Graças a Deus. Trata-se de uma família vivendo seu dia a dia, apesar de pequenos episódios bem pitorescos. Mas o livro todo é uma reflexão sobre o caos, sobre como um grupo de pessoas tenta criar vínculos e raízes em um lugar e entre eles. A casa dos Gattai era ao mesmo tempo isolada da vizinhança pelas suas peculiaridades, crenças, ideias, mas completamente integrada e aberta pelas semelhanças com um povo que também estava chegando, que também era imigrante.

Anarquistas, Graças a Deus é uma interessante narrativa da vida de uma pessoa que ao mesmo tempo teve as mesmas dificuldades e conflitos de toda uma geração mas viveu histórias únicas e momentos marcantes que valem a pena ser contados. No meio disso tudo, personagens reais fascinantes e uma história de esperança sobre uma comunidade igualitária que nunca realmente saiu do papel. Senti falta talvez de melhor explorar essa história ou de conhecer os outros momentos de Zélia, como seu encontro com Jorge Amado (que ela descreve por alto). Mas o livro cumpre o que promete. Definitivamente recomendado.

 

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