Revisitando – Apenas o fim
por Bruno Lisboa
em 28/04/15

Nota:

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Apenas o fim, o filme, é uma anomalia do cinema brasileiro safra anos 2000. Um breve olhar para as produções brasileiras dos últimos anos em solo nacional comprova a categorização mencionada. (O filme já foi resenhado por aqui pelo Gabriel).

A título de exemplo, um breve olhar para o que fora lançado em 2008, ano em que o longa dirigido por Matheus Souza chegou as salas de cinema brasileiras, as produções nacionais de maior rentabilidade e desataque primaram pelo gênero comédia de baixo calão (Casa da mãe Joana, O diário de Tati, A Guerra dos Rocha são alguns exemplos). Desta feita, assistir a um filme dramático, com ares humorísticos, sobre adolescência com características inovadoras é um autêntico respirar.

Dirigido e roteirizado por Matheus Rocha, na época um jovem estudante de cinema com 19 anos de idade, Apenas o fim, seu trabalho de estreia, capta de maneira geral as ambições de todo diretor iniciante: fazer muito a partir de pouco.

Roteirizado em formato minimalista, centrado em poucas ações, Apenas o fim tem como influência direita na obra do cineasta Richard Linklater: o filme lançado em 1995 chamado Antes do Amanhecer.

No enredo, elaborado pelo diretor americano em parceria com Kim Krizian, temos o casal Jesse e Céline (interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy respectivamente). Ambos que se conhecem num trem de viagem europeu e após breve conversa decidem passar um dia juntos em Viena, Áustria. Tendo a câmera como cúmplice, muitas vezes em cenas sem corte, a mesma persegue de maneira contínua todo o desenrolar da narrativa, centrada em diálogos sobre a vida e longas caminhadas pela cidade.

Na época o filme não repercutiu em bilheteria (arrecadou cinco milhões de dólares, o dobro se comparado ao seu custo final), mas conquistou toda uma geração de cinéfilos (garantindo-lhe o status de filme cult) e jovens diretores na década seguinte.

Por sua vez, o filme de Matheus Rocha também adota o mesmo formato, porém adaptado a sua própria realidade.

Rodado no campus da PUC do Rio de Janeiro, em filmagem realizada durante o dia, temos na dupla de protagonistas Adriana e Antônio, protagonizados por Érika Mader e Gregório Duvivier, o cerne de todas as ações.  

Abusando da escola teatral de Constantin Stanislavski, as atuações de Érika Mader e Gregório Duvivier deixam expostas marcas do exercício do improviso. Tal escolha resulta numa sintonia imprensa por marcações livres e espontâneas fazem com que texto e suas adaptações fluam com naturalidade.

A narrativa se divide em dois momentos distintos e alternados: o presente, no qual Rocha utiliza o recurso do plano sequência para acompanhamos a caminha do casal pela Universidade, e o passado que foi rodado em preto e branco com planos fechados, tendo um quarto como locação.

Tal grande parte dos filmes destinados ao público adolescente safra anos 2000 (o brasileiro 2 coelhos é um belo exemplo), Apenas o fim faz uso contínuo de referências da cultura pop. Para estabelecer diálogo direto com o seu público consumidor menções a jogos eletrônicos, músicas e seriados televisivos são mencionados ou visualizados ao longo do filme.

Mesmo sem alcançar grande repercussão midiática, Apenas o fim representa o recomeço para o cinema nacional.

Em tempos nos quais o cinema em suas esferas comerciais opta repetir fórmulas com alto custo final de produção, o filme de Matheus Rocha consegue de maneira simples externar que é possível se fazer obras a baixo custo e de qualidade.

O diálogo com elementos da cultura pop e a adoção de um modo atuação mais simples resultaram numa das obras mais interessantes do cinema contemporâneo brasileiro.

Postado em: Semana de Cinema
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