Revisitando – Daytripper
por Thiago
em 05/02/14

Nota:

 

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Hoje estreamos uma nova coluna no Poderoso: Revisitando. 

Toda leitura tem sua interpretação pautada no contexto de cada leitor porque cada pessoa vê determinado enredo sob seu próprio ângulo. Essa é uma das belezas da literatura. Claro, interpretações similares podem ocorrer mas, com certeza, alguns detalhes chamarão mais a atenção de uns do que de outros. Para mostrar isso, essa coluna consiste de resenhas de livros que JÁ foram resenhados no Poderoso antes por outro colunista. Vocês poderão comparar as resenhas e tirar a prova real de que não existe livro bom ou ruim. Existe pessoas que gostam de um e pessoas que gostam de outro. E não tem nada de errado com isso.

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Resenha de Daytripper do Gabriel (publicada em 22/07/2012)

Existem alguns temas que me fascinam e um deles é a morte e seus detalhes. Sei que falar isso assim pode parecer meio estranho, mas o que me atrai na morte é exatamente o que o quadrinho dos paulistas gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.

Pra deixar esse papo menos macabro vamos entender melhor do que essa obra trata. Daytripper foi lançada em 2011 pela Panini e colecionou prêmios extremamente importantes pelo mundo, como o prêmio Eisner, o Jabuti e o Utopiales na França. Você deve estar se perguntando, o que esse quadrinho tem de tão especial assim? Do que ele fala? É de super herói? Não, não é de super nem de herói, quadrinhos não se resumem a isso, eles são apenas um modo de se contar uma história e podem contar qualquer uma, de qualquer temática e pra diversas idades.

Daytripper trata de morte, mas não há como falar de morte sem falar de vida, aqui vamos conhecer a ou as vida ou vidas de Brás, um personagem extremamente carismático e convincente. Uma característica da obra é a plausibilidade da existência de seus personagens e acontecimentos. Voltando então ao nosso personagem principal, ele é filho de um mundialmente conhecido escritor brasileiro, Brás porém passa seus dias na redação de um jornal escrevendo a sessão de obituários enquanto sonha em se tornar um autor de sucesso, assim como o pai. Após esse ponto de partida seremos levados as diversas vidas possíveis do nosso “herói” e as suas diversas mortes, mas o que importa não são as mortes em si e sim os detalhes da vida que ditam o rumo do nosso amanhã.

Confesso aqui que chorei mais de uma vez durante a leitura, as ilustrações, as cores, as falas e toda a realidade presente nos traços são muito fortes e críveis. Tudo nessa Hq é bom, a ilustração é fantástica, o clima lúdico beirando o fantástico pra falar de algo real é simplesmente fantástico e isso me trouxe tantas questões, tantas reflexões boas mas difíceis de se fazer, como olhar pra trás em busca da minha própria história, do meu caminho, de tudo aquilo que me levou a ser quem sou e a estar onde estou. Além disso pensar que tudo poderia, por uma pequena farpa, ser diferente, muito diferente, incontrolavelmente diferente. A outra coisa que me levou foi exatamente isso, as questões incontroláveis da nossa vida são tão grandes, são quase tudo na verdade.

Por acaso já pararam pra pensar como poderia ser sua vida hoje caso tivessem tomado outras decisões na vida? Mesmo as pequenas, principalmente as pequenas, como ir a um bar com seus amigos numa quarta-feira à noite, talvez lá você conheça a futura mãe dos seus filhos. Se você tivesse ficado em casa no dia e não a conhecesse, não se casasse e nem tivesse filhos, quem seria você hoje? Como seria seu amanhã? Nossa vida é mostrada aqui como uma casualidade de detalhes que nos fazem ser quem somos e viver no contexto em que estamos.

Todos temos diversos momentos da nossa vida em que queríamos ter feito coisas diferentes das que fizemos, mas não depende simplesmente das nossas escolhas pra nossa vida ser diferente (mesmo este sendo o fator mais decisivo), há ainda diversos elementos randômicos que fogem do nosso controle e podem mudar o rumo da nossa vida por completo e consequentemente quem nós somos, o mundo a nossa volta e como vamos morrer. Já pensou nos passos que traçam delicadamente sua vida até o último ato da peça onde a cortina desse?

Infelizmente não somos preparados para lidar com a morte, principalmente nós ocidentais de um berço judaico cristão que têm a culpa como guia. E as outras culturas como lidam com a morte (não responderei isso, mas segue uma indicação de um livro do Edgar Morin chamado “O homem e a morte”, prometo em um futuro não muito distante fazer uma resenha sobre ele)?

Depois dessa desejo a todos boas escolhas e que a contingência da vida lhe favoreça.

Boa leitura e até a próxima semana se a aleatoriedade dos detalhes que nos cercam permitir.

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