Revisitando – Holocausto Brasileiro
por Patricia
em 10/08/15

Nota:

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Durante um tempo na minha adolescência só li coisas relacionadas a Segunda Guerra Mundial. De livros de fotos a relatos de sobreviventes de campos de concentração, ficção ou não, cacei livros sobre o tema em todo lugar. Até hoje é um assunto que me interessa demais. Já falei aqui algumas vezes sobre alguns livros desse assunto – lista de links ao final da resenha*.

Holocausto para mim, portanto, sempre foi um termo atrelado ao destino judeu com Hitler no poder. Quando vi o livro de Daniela Arbex, minha primeira impressão é que o título poderia ter sido escolhido pelo impacto que a palavra ainda carrega – uma maneira de chamar a atenção, digamos. Não conhecia nada sobre o caso do Colônia e peguei o livro para dar uma olhada em uma tarde de Domingo pacata e só parei quando o dia já estava escuro. A resenha da nossa convidada Juliana Ghidini já deveria ter me alertado para o que iria encontrar, mas quis ver por conta própria.

O livro é um trabalho espetacular de pesquisa por parte da jornalista Daniela Arbex. Aos poucos, vamos compreendendo o tamanho do horror que aconteceu em Barbacena, Minas Gerais.

Em 1900 foi criado o Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que viria a ser conhecido como Colônia. Ali, seriam internadas pessoas com problemas psicológicos que a medicina deveria tratar. No melhor estilo “Brasil sempre foi assim”, o hospital feito para 200 pessoas, logo tinha 5000 “pacientes”.

O uso de aspas é apropriado aqui, porque a sociedade resolveu juntar ali tudo o que não queria: prostitutas, esposas que foram trocadas por amantes, mães solteiras, mulheres que perderam a virgindade antes de casar, homossexuais, indigentes e até crianças tímidas que não tinham amigos. As histórias que Daniela nos apresenta são estarrecedoras. De mães que tiveram seus filhos arrancados dos braços quando eram recém nascidos, a pessoas que tinham que comer ratos para sobreviver porque a comida e a higiene do lugar era extremamente duvidosa. Tratados como animais, muitos pacientes tornaram-se exatamente isso.

O comércio de corpos, o descaso dos médicos, a falta de treinamento daqueles que eram contratados para trabalhar lá também deixam uma marca tenebrosa na história. Tanto de Barbacena quanto do Brasil. Ao ponto de ser muito difícil de diferenciar as fotos tiradas no Colônia de um campo de concentração nazista. Há outra palavra que não se usa no livro – tão forte ou mais que Holocausto: genocídio. Se levarmos em consideração que a maior parte das pessoas internadas eram negros e pobres, acho que temos uma boa dimensão da limpeza social que estava em voga na época (coloco o “na época” com certa dúvida).

Além da pesquisa meticulosa para dar voz àqueles que foram esquecidos, Daniela também utilizou as fotos de Luiz Alfredo – primeiro fotógrafo a registrar os horrores do hospital. As fotos, combinadas com os relatos resultam em uma obra incrivelmente forte. É realmente uma obra difícil de largar apesar da tristeza, raiva, ânsia e vontade de chorar que aparecem durante a leitura. Ela exige estômago forte, mas não tanto quanto exigiu das pessoas que viveram e morreram ali – algumas sem a mínima idéia do motivo de sua internação.

Uma obra que vai direto ao ponto, sem amenizar nada para o leitor (e nem sei se seria possível), com um trabalho excepcional de pesquisa e texto – porque uma coisa é fazer uma boa pesquisa e outra é condensar tudo em um texto limpo, fácil de acompanhar e coeso.

Obra imperdível para quem tem estômago forte.

***

O que já falamos sobre Guerras:

5 às 5as – 5 livros de guerra (ficção)

5 ás 5as – 5 livros de guerra (não ficção – 2a Guerra Mundial)

Resenha: O clube de boxe de Berlim

Resenha: A vida em tons de cinza

Resenha de Quadrinho – Maus

Resenha – No jardim das feras

Resenha – Matadouro 5

Semana de Cinema – O grande Ditador

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