Revisitando – Os testamentos
por Bruno Lisboa
em 03/06/20

Nota:

Margaret Atwood já apareceu aqui no Poderoso e a admiração pelo Conto da Aia já foi demonstrada por aqui. E não é para menos: tanto a obra quanto a sua adaptação em formato série são dignas de aplauso, em especial pela temática corajosa ao abordar, de forma ficcional, o totalitarismo teocrático governamental, suas ramificações e suas sequelas na sociedade.

O enorme sucesso da série, que atualmente está na sua 3ª temporada com uma quarta engatilhada, acabou por render um maior interesse na obra original (lançada em 1985). Com isso foi gerada uma enorme expectativa quando uma possível sequência e a espera acabou com o lançamento de Os testamentos ano passado, obra vencedora do Booker Prize junto a Girl, Woman, Other de Bernadine Evaristo.

O enredo é centrado em acontecimentos ocorridos 15 anos após a trama desenvolvida no primeiro volume. A narrativa é fragmentada em capítulos curtos onde temos o desenrolar da história dividido em três perspectivas: Tia Lydia e as adolescentes Agnes e Daisy. As duas primeiras estão em Gilead (que nada mais é que os EUA, sem o estado do Texas) e a última no Canadá. Esta escolha, inclusive, faz com que a alternância de olhares traga elementos essenciais, que ajudam a compreender o regime tanto interno quanto externamente.

Se no Conto da Aia temos o arquétipo da Gilead sendo construído e atingido o seu ápice, em Os testamentos se observa que a solidez do sistema opressor começa a ruir devido a um conjunto de ações da pressão internacional e a ações do grupo opositor de resistência (o Mayday) que, durante uma década e meia, agiu de maneira sorrateira visando a derrubada do sistema.

A sua maneira, Os testamentos é um produto acessório à série de TV, mas isso não chega a ser um demérito. A narrativa é fluída, mantém a essência revolucionária do original e, ainda assim, atualiza o discurso ao trazer para si parte do público juvenil que pode aqui retirar aprendizados para as futuras gerações.

Se na vida real o que se vê é o recrudescimento de governos totalitários, baseados num falso cristianismo misógino/patriarcal, Os testamentos deixa clara a lição de que o rompimento de um movimento opressor não se dá através do diálogo, mas sim de ações pontuais que visem destruir os alicerces que o construíram.

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