Revisitando – Precisamos Falar Sobre o Kevin
por Gabriel
em 03/04/15

Nota:

Precisamos falar sobre o kevin

Que livro. Que soco na cara é esse pequeno calhamaço de quase 500 páginas produzido por Lionel Shriver. Tendo assistido ao filme e sabendo do teor da história, pulei para a versão escrita sob as recomendações da Paty (resenha aqui), que era muito enfática em dizer que o livro era muito melhor. E tinha razão. Ainda estou sentindo os efeitos do final desta experiência incrível e vou tentar explicar porquê.

O livro conta a história de mais um massacre escolar americano, em que um garoto mata uma dezena dos seus companheiros de escola de forma sangrenta por motivos obscuros. Só que aqui o ponto de vista é o que faz a diferença: Lionel Shriver nos coloca ao lado da mãe do assassino, Eva Khatchadourian. E da forma mais íntima possível, através das cartas enviadas pela mãe ao pai de Kevin, o garoto em questão.

A capa desse livro descreve de forma muito competente o clima perturbador que reina durante a maior parte da leitura. Eva vive uma vida destruída enquanto conta a seu ex-marido como é encarar o fardo de ser a mãe de um assassino como esse. Aos poucos, ao longo das cartas, ela intercala detalhes de sua nova vida com revelações sobre sua vida “anterior”, que vão pintando o quadro de como tudo aconteceu. E por vezes, ela descreve seus encontros com Kevin.

Os encontros entre Eva e Kevin na cadeia são momentos secos e de tensão. Aos poucos a relação dos dois muda e vamos entendendo cada vez mais as raízes de tudo aquilo enquanto as cartas descrevem a relação de mãe e filho mais conturbada e doentia que já vi. Eva nunca quis ter filhos e isso se refletiu na forma como deu à luz a seu primogênito, que por sua vez também sempre rejeitou a mãe. Essa relação doentia combina-se à relação do garoto com o pai, uma fachada de comercial de margarina que aos poucos vai se provando mais e mais frágil.

O tema e os personagens de Precisamos Falar Sobre o Kevin já fariam desta obra uma boa realização. Porém, o que realmente transforma esse livro em um vibrante soco na cara é a forma escolhida por Lionel Shriver. A linguagem das cartas vai tornando o leitor muito íntimo de Eva e de sua família, vai te aproximando daqueles personagens; e Shriver toma todo o cuidado do mundo para omitir certos pontos até que eles apareçam na história. Assim, não dá para percorrer 50 páginas do livro sem ser surpreendido, sem ter um novo elemento inserido, sem mudar de opinião sobre os motivos de Kevin (a obsessão de sua mãe e consequentemente do leitor). E até a última página não é possível formar opinião alguma sobre nenhum dos personagens do livro.

Como alguém que já tinha visto o filme e recebido tão boas recomendações sobre o livro, eu já tinha expectativas altas quando iniciei a leitura. Por um bom tempo sentia apenas que era uma história pesada, tensa, e que aquela capa causava um certo desconforto em um ou outro passageiro do metrô ou do ônibus. Mas aos poucos fui percebendo o quanto a história tinha me envolvido e o quanto aquilo me afetava diretamente. As emoções de Eva se tornam as suas emoções. E nada, nada mesmo te prepara para o final. E não só para seu conteúdo, mas para a maneira como ele é contado.

Este livro é uma das melhores coisas que já li. É tenso, desperta emoções pesadas e chorei que nem uma criancinha nas suas duas últimas páginas… e isso é justamente o que o faz tão incrível. Separe alguma coisa felizinha pra te recuperar depois da leitura e mergulhe; não vai se arrepender.

Postado em: Revisitando
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Revisitando – Precisamos Falar Sobre o Kevin”


 

Comentar