Revisitando – Americanah
por Gabriel
em 02/02/16

Nota:

Americanah

O ano de 2015 se arrastou mas acabou, e eu consegui manter uma promessa feita ao final do ano anterior: ler apenas livros e quadrinhos escritos por mulheres durante o ano todo. Poucas autoras fechariam tão bem uma sequência destas como Chimamanda Ngozi Adichie, a autora nigeriana que é conhecida como uma das jovens autoras mais importantes da literatura africana contemporânea.

A Paty já esteve por aqui resenhando Americanah e fez um belo resumo da história. Tentarei então me ater a outros aspectos da obra, sem falar tanto do roteiro em si.

Americanah conta a história de um casal nigeriano (Ifemelu e Obinze) que vive sua juventude durante os anos de ditadura no país. Como muitos outros de sua geração, eles acabam buscando sua própria sorte no exterior após se frustrarem com as dificuldades ali vividas. E têm sua trajetória dividida quando as coisas começam a se encaminhar de formas quase opostas para ambos, ela se estabelecendo nos Estados Unidos e ele sendo deportado da Inglaterra e voltando à Nigéria.

Esta é a base do roteiro de Americanah, uma espécie de conto de fadas contemporâneo, o que para ser sincero me decepcionou um pouco. A história em si é bem contada, mas não traz grandes novidades. Por outro lado, o que faz toda a diferença aqui é o contexto. Há diversas camadas de discriminação e preconceito representadas na obra: enquanto Obinze luta com a xenofobia e a dificuldade que os imigrantes enfrentam na Inglaterra, Ifemelu lida com o fato de ser uma mulher negra africana nos Estados Unidos. Em meio a tudo isso, o tempero da própria segregação nigeriana, uma nação temperada pelo tribalismo que divide pessoas entre os Igbo e os Yoruba.

Esta é uma obra bem construída. Chimamanda não respeita a ordem temporal e faz diversas idas e vindas nos primeiros capítulos para contar como os personagens chegaram onde estão. Não há indicações explícitas como “dez anos atrás” ou algo assim; o que há são os personagens envolvidos e as situações, ganchos que fazem com que o leitor não se perca e consiga acompanhar sem nenhum problema as mudanças de tempo e de protagonista. A autora realmente sabe construir personagens com complexidade e traços  reais e levar uma história mantendo o leitor envolvido. Não houve nenhum momento em que me desanimei durante a leitura.

Outra forte característica de Chimamanda é sua capacidade de trazer para a palavra escrita a grande diversidade das variantes linguísticas. Li Americanah em Inglês, no original, e é incrível como a autora consegue representar os sotaques e formas de falar de nigerianos, ingleses e americanos com grande verossimilhança, ambientando completamente o leitor.

Americanah fecha com chave de ouro o meu ano de leitura de mulheres por ser um grande exercício de empatia. Não grande por ser difícil, mas sim por envolver tantas coisas diferentes do cotidiano de um homem branco brasileiro como eu. Ao ler histórias de uma mulher negra nigeriana é possível se lembrar do quanto ainda temos que evoluir como sociedade e o quão longe estamos de ser justos (mesmo – e talvez até especialmente – em países como Inglaterra e Estados Unidos).

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2 Comentários em “Revisitando – Americanah”


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Minhas Impressões em 03.02.2016 às 22:01 Responder

Oi Gabriel.
Primeiro, parabéns por ter cumprido sua meta. Não deve ter sido fácil, eu mesma acho que não conseguiria.
Segundo, fico contente de ver que o livro te tocou dessa forma especial e te fez refletir, você sendo um homem branco.
O livro também foi muito especial para mim. Me vi na Ifemelu, na sua descoberta, no seu processo de amadurecimento.
Espero que mais pessoas leiam e reflitam sobre tudo que é posto no livro.
Abraços.

Minhas Impressões

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Gabriel em 04.02.2016 às 08:43 Responder

Olá! Muito obrigado! Eu diria que é mais fácil do que parece seguir o desafio. Claro que é preciso se segurar pra não ler algumas coisas muito boas feitas por homens, mas é uma experiência bem enriquecedora se ver buscando obras escritas por mulheres e perceber como o mundo editorial é machista. No mundo dos quadrinhos então a dificuldade de conseguir material é incrível! Que bom que você teve essa experiência com o livro, acho que realmente é uma obra que tem esse potencial. 🙂

Abraços!


 

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