Revisitando – Linha M
por Patricia
em 02/05/17

Nota:

 

Patti Smith já passou pelo Poderoso antes – tanto com Só garotos quando com Linha M, este último resenhado pelo Bruno. Demorei um pouco para ler Linha M depois de terminar Só garotos (quase 1 ano) mas ao ler o livro não poderia deixar de falar sobre ele. A essa altura, não sei se você ainda precise que expliquemos quem é Patti Smith, mas vamos dizer que sua biografia é extensa e seu álbum Horses foi considerado um dos precursores do movimento punk. Além disso, ela também é fotógrafa, poeta, escritora e sonhadora em geral.

Em Linha M não há um tema específico abordado pela autora, ela comenta sobre suas leituras, sua rotina, trabalhos do momento. Além de Smith, um outro personagem aparece em alguns textos: um vaqueiro de botas de níquel que brota do subconsciente sempre que ela se vê estancada em um texto ou um assunto.

Smith tem uma personalidade obsessiva (ou algo como): ela pode passar horas relendo trechos de livros buscando pistas para decifrar pontas soltas na história e dissecando cada palavra à exaustão ou reimaginando cenas para seus personagens preferidos. Ela está sempre no mesmo Café, na mesma mesa, comendo sempre a mesma coisa. Aliás, seu vício em café é tanto que durante uma viagem para o México ela fingiu ser uma jornalista da revista Coffee Trade para experimentar um café excepcional em uma cidadezinha em que ninguém falava inglês.

Apreciadora da solidão, Smith tem sonhos tão vívidos e irreverentes que servem de excelente companhia a uma vida totalmente fora do padrão.

Se em Só garotos descobrimos mais sobre o relacionamento dela com Robert Mapplethorpe, em Linha M ela nos revela alguns momentos de seu casamento com o guitarrista Fred Smith que faleceu aos 45 anos, em 1994.

Fiel às suas raízes punks, ela tem um desprendimento divertido das coisas: se seu casaco está com os bolsos rasgados então ela vai perder as coisas. Sua casa sofreu uma inundação e o chão de madeira apodreceu? É só esperar o momento certo e trocar. É difícil imaginá-la alterando-se por questões simples e mundanas como essa. Há uma paz e uma calma refletida nas páginas que faz com que a leitura seja como ler o diário de uma grande amiga. Ou ouvir as histórias enquanto tomamos uma xícara de café fresco.

Algo no estilo de Smith passa para o leitor suavemente. Me peguei tomando mais café, anotando suas referências literárias e escrevendo esta resenha à mão numa padaria próxima à escola que frequento na mesma mesa de sempre. Também repensei a maneira como consumo algo frente ao desapego quase completo da autora por suas possessões.

No miolo da obra há diversas imagens, a maioria é de fotos autorais da própria autora e dão um contexto visual a alguns textos. O fio condutor da obra são os pensamentos errantes da autora que às vezes são grandes reflexões sobre a vida, a morte e até sobre literatura (na minha opinião, os melhores textos) e às vezes são soltos e até abstratos mas que ela consegue nos passar com delicadeza.

Linha M é o tipo de livro que te ajuda a esquecer a vida e embarcar na mente absolutamente fantástica de Patti Smith.

 

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