Revisitando – O que é fascismo? E outros ensaios
por Patricia
em 29/11/17

Nota:

 

Alguns escritores parecem escrever sobre seu tempo com uma visão que reverbera por muitos e muitos anos. Orwell definitivamente é um desses. Um autor prolífico, Orwell escreveu uma quantidade insana de artigos sobre assuntos variados: de filmes e livros ao estado da política européia. “O que é fascismo? E outros ensaios” nos apresenta um conjunto de textos cujo foco principal é a política.

O autor já passou pelo Poderoso antes com um de seus maiores clássico, “A revolução dos bichos”, com “Como morrem os pobres e outros ensaios” e o Bruno já falou de “O que é fascimo? E outros ensaios”. Como o Bruno explicou em sua resenha, os textos nesta obra foram escritos entre 1938 e 1948 – anos de intensa violência em diversas partes do mundo mas, principalmente, na Europa com a Segunda Guerra Mundial.

Os textos pré-Hitler são, talvez, alguns dos melhores. Orwell parecia ver o que a elite política da Europa fingia não notar: que a ascensão de Hitler marcava uma nova era de violência e terror para o continente. De maneira muito lúcida, Orwell também não alivia nada para a esquerda européia – explicando que a política morna da região facilitava o surgimento de figuras totalitárias como Hitler, Mussolini e, até mesmo, Churchill. Nada parecia escapar da análise sagaz e certeira do autor.

Apesar de fascismo remeter a política, a obra inclui textos do autor sobre livros e também sobre cinema – obras que também tocavam no tema totalitarismo, violência e guerra.

Em “O grande ditador” (filme sobre o qual já falei aqui láaaa atrás e que segue na minha lista de filmes preferidos da vida) Orwell resenha o filme de Chaplin no contexto de uma Europa próxima demais do desastre. Ainda que reconheça as falhas do filme, o autor também entende o papel de Hynkell – um dos personagens interpretados por Chaplin – em humanizar um ditador usando o humor como principal arma. Ainda que seja, em certos momentos, um humor pastelão.

Mesmo quando analisa uma época que parece tão distante, Orwell acerta no hoje. Trechos como:

“Arriscando-me a dizer algo que os editores do Tribune podem não endossar, sugiro que o verdadeiro objetivo do socialismo é a felicidade. A felicidade tem sido até agora um produto, e até onde sabemos assim pode continuar para sempre. O verdadeiro objetivo do socialismo é a fraternidade humana. Esse é o caso, e assim é amplamente percebido, apesar de isso em geral não ser dito, ou não ser dito alto o bastante.” (pág. 70)

“Não estou meramente afirmando são acriminosas. Elas têm que ser quando tratam de assuntos sérios. Estou dizendo que quase ninguém parece achar que um oponente merece ser ouvido com atenção, ou que a verdade objetiva importa tanto quanto você ser capaz de marcar ponto num debate. Quando olho para minha coleção de panfletos, a mim parece que quase todos têm a mesma atmosfera mental, embora os pontos de ênfase variem. Ninguém está em busca da verdade, todos estão apresentando um ‘caso’ com total desconsideração à imparcialidade  ou à exatidão, e os fatos mais evidentemente óbvios podem ser ignorados por quem não os quer ver.” (pág. 136)

Um livro necessário e que, me parece, continuará a ser relevante por muito, muito tempo. Assim como seu genial autor.

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O livro foi enviado pela editora. 

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