Sobre De mim já nem se lembra
por Patricia
em 22/07/16

Nota:

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Ruffato é um dos autores brasileiros contemporâneos mais aclamados da atualidade. Suas obras já foram traduzidas para diversos idiomas e também já recebeu diversos prêmio, entre eles, o Jabuti em 2015 por A história verdadeira do sapo Luiz, seu primeiro livro infantil e o Internationaler Hermann-Hesse-Preis esse ano. Em 2013, seu discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt foi aclamado pelas duras e sinceras críticas ao país.

De mim já nem se lembra é sua obra mais recente – lançada pela Companhia das Letras esse ano e foi meu primeiro contato com o autor. No livro, Ruffato nos apresenta a um episódio de família que serve como pano de fundo, enre outras coisas, para nos apresentar a São Paulo, principalmente, dos anos 70 vista por um jovem mineiro de Cataguases (irmão do autor) que decide tentar a vida. Também há uma dose de vontade em manter a memória da família viva e de conhecer melhor um irmão que se foi através de suas próprias palavras.

Ruffato encontra as cartas do irmão que morreu em um acidente de carro em 1977 quando está remexendo algumas coisas de sua mãe, agora também falecida. O irmão que lhe despertou certo ciúme pela atenção que recebia dos pais apesar de estar longe, detalha nas cartas as dores da mudança da roça para a cidade grande, de conhecer pessoas novas a começar a fazer planos de vida…enfim, as dores do amadurecimento forçado.

É uma história tão similar a tantas outras que, em meio a essa resenha divido com vocês uma conversa com meu pai numa mesa de bar sobre sua própria história de sair de uma cidade pequena – quase uma roça – para a grande cidade. O livro todo inspira uma conversa como essa, na verdade. (P é representativo de Pai, apenas para facilitar a leitura, obviamente).

***

A história de Célio nos mostra uma breve foto da história da própria São Paulo: uma cidade, junto com suas cidades satélites, que explodiu com a industrialização atraindo mão de obra de diversas partes do país. Célio vem trabalhar em uma fábrica – destino de muitos de seus amigos em uma indústria que surgia com força no Estado: a indústria automobilística.


Eu: Estou lendo esse livro…é bem interessante […] O cara que escreve as cartas veio para São Paulo da década de 70. Quando você chegou aqui? Por aí também, não foi?

P: Cheguei em São Paulo em 1980 com uma trouxinha de roupa para a casa do meu irmão pertinho da Avenida Paulista. 

Eu: Como era a cidade naquela época? 

P: A cidade grande assustava a todos, mas era também a grande chance. Quando cheguei já cometi um erro. Vendi o meu carro achando que aqui não precisaria dele porque ia morar pertinho do trabalho, ledo engano, aqui era carro pra tudo principalmente na década de 80.

Eu: Foi fácil se adaptar? 

P: Os primeiros meses foram difíceis. Dava saudade, os amigos estavam em Piracicaba e os novos amigos na verdade eram companheiros de trabalho. Em qualquer folga eu já fugia de volta para minha terra. Era quase toda semana, comecei a perceber que ia acabar gastando todo o meu salário só nas viagens. Daí alguns novos amigos foram aparecendo e as viagens foram ficando mais distantes. A cada 15 dias, a cada mês e depois até um pouco mais. Já me tornava um cidadão paulistano e corria junto com aquela imensidão de pessoas buscando sonhos. Os jovens sempre pensam que vão resolver tudo num dia só, mas é preciso ter paciência.


Célio torna-se testemunha da cidade que vivia em uma dicotomia expressiva: ao mesmo tempo em que haviam festas para comemorar namoros cheios de decoro, haviam pessoas que sumiam nas mãos da Ditadura. A ingenuidade dos migrantes se encontrava em cada esquina com a violência local – algo que segue atual, se levarmos em conta os relatos descritos por Vanessa Barbára em seu ótimo O livro amarelo do terminal, em que entrevista pessoas que chegam a São Paulo no Terminal Tietê vindas de todo canto do país.

Sonhos, uma vida melhor, uma cidade gigantesca, oportunidades: a São Paulo dos anos 70-80 representava tudo isso e muito mais.


Eu: E por que São Paulo? 

P: Na minha profissão, radialista, era o centro mais avançado da América Latina, se rivalizava com todos os meios de comunicação do mundo e crescia vertiginosamente.

Eu: O que você fazia aqui sem dinheiro?

P: Um dos bons passeios, pasme, era visitar o Aeroporto de Congonhas. Cumbica só tinha uma pista e apenas 3 anos de inaugurado e muitas das grandes todas ainda saíam de Congonhas. Voo internacional na maioria das vezes desembarcava no Rio de Janeiro e de lá frequentemente uma troca de aeronave até São Paulo. Depois a coisa se inverteu com o advento de Guarulhos.


Em suas cartas, à medida que sua estadia em São Paulo se estende, Célio apresenta uma maturidade maior e uma consciência mais visível da realidade na qual está inserido. Ele se junta ao movimento sindical da fábrica (o que me levou a questionar algumas vezes se o acidente que o vitimou foi mesmo um acidente, mas essa é a narrativa aceita pela família). Vale notar que o movimento sindical no ABCD Paulista foi um dos mais fortes do país em dado momento.

Além disso, Célio também entende melhor como funciona a Ditadura: um conhecido seu desaparece sem deixar rastros e como que de repente, ele percebe que suas cartas podem estar sendo lidas por outras pessoas.


Eu: Você viu alguma coisa da Ditadura em SP?  

P: Com o tempo os ditadores de plantão foram se apequenando, perdendo a força, mas ainda impediram as eleições diretas após o forte movimento Diretas Já que mexeu com São Paulo e se esparramou por todo o país. A emenda do falecido político Dante de Oliveira ganhou as ruas e os militares ficaram sem ação, mas mexeram seus pauzinhos e não permitiram eleições diretas.

Eu: No livro, o moço entra para o Sindicato. 

P: Eu fui sindicalista. 

Eu: E como era isso na época? 

P: Eu era sindicalista, em Piracicaba, levei o Sindicato dos Radialistas para a região, eu e um japonês bom de microfone, quieto como uma coruja, mas totalmente à esquerda dos militares. A ditadura estava agonizando, mas ainda assustava. Participamos à distância da regulamentação da lei 6.615 que transformou o radialista em profissional. Nunca me esqueço, pois a homologação foi num 16 de dezembro, dia do meu aniversário, em 1978. Houve greve entre jornalistas naquela época e os radialistas foram no embalo, alguns até sem saber porque ou pelo que estavam brigando, era época do sindicalismo de resultado e contra o governo até a medula. O negócio era mobilização e todos iam atrás. Chegando em São Paulo, os companheiros de Sindicato me convidaram para continuar na “luta” e eu declinei. Achei que com 23 anos de idade seria uma irresponsabilidade e já tinha vivido a pressão lá na longinqua Piracicaba. Ia é cuidar da minha vida e ver no que dava.

Eu: E aí você nunca mais foi embora…

P: Na Paulicéia Desvairada encontrei trabalho, amigos, aflições, preocupações, a minha namorada que está comigo até hoje, mãe das minhas filhas, e aprendi a gostar de uma cidade que pulsa 24 horas por dia. Tem atrações para todos os gostos e cantos ainda desconhecidos para mim. Tem gente de todos os cantos também. Cada um com sua história de vida e construção da própria vida nesse grande cidade. Aqui nessa cidade em 1990 eu vi o Corinthians pela primeira vez campeão brasileiro, vi o Palmeiras sair da fila com um time excepcional, vi o Santos de Robinho ganhar um Brasileiro no Morumbi e o mágico São Paulo de Cilinho na década de 80 e depois o extraordinário Telê Santana na década de 90. Tudo isso para mim é São Paulo.


Há tanto por trás de “De mim já nem se lembra” que a vontade é que Ruffato tivesse encontrado 300 cartas. A leveza, a simplicidade, a fluidez da conversa de Célio com sua mãe através de cartas que acabam quase que também sendo endereçadas para o leitor já que não temos as respostas, que ele recebia, resultam em um daqueles livros que à primeira vista são simples e quanto mais tempo passa da leitura, mais conseguimos encontrar novos sentidos – uma mãe que perdeu um filho comentou no Instagram do Poderoso que havia relembrado essa dor. Para ela, mais do que uma foto de São Paulo, ela viu uma imagem de seu próprio filho imaginando a dor da mãe mais do que qualquer outra coisa.

Esse parece ser o poder de um grande escritor: enquanto nos apresenta uma história singela, acaba tocando em cada leitor aquele ponto por vezes dormente, por vezes curioso que temos. É uma mãe que relembra do filho ou uma filha que decide ter com o pai uma conversa que nunca teve. Tudo isso em menos de 150 páginas.

Uma excelente introdução a Ruffato.

***

O livro foi enviado pela editora. 

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