Semana de Cinema – A Ditadura perfeita
por Patricia
em 27/04/15

Nota:

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O México, como muitos sabemos, enfrenta um dos piores momentos de sua História com a violência relacionada aos cartéis de droga aumentando. Há uma percepção de corrupção generalizada não muito diferente do que vemos no Brasil.

O filme A Ditadura perfeita, lançado em 2014, usa a comédia para abordar temas como: corrupção, o poder da mídia e a manipulação descarada dos fatos para mover a opinião pública para um lado ou para outro.

A primeira cena já dá o tom: o embaixador norte-americano dos Estados Unidos visita o jovem Presidente do México. Durante a breve conversa, o Presidente diz com todas as letras que os EUA deveriam abrir a fronteira e deixar os mexicanos entrarem porque eles podem fazer qualquer trabalho melhor que…os negros. Lembrando que o filme se passa em 2014 e o presidente dos EUA é…Barack Obama. A gafe cai nas redes sociais e o Presidente mexicano vira piada.

Para tentar sair da mira, ele envia à maior rede de televisão do país um vídeo em que se vê um Governador (que é do mesmo partido que ele) recebendo um narco-traficante e uma maleta de dinheiro. A mídia faz um baita barulho e começam os pedidos de renúncia do Governador. A gafe do Presidente é esquecida.

O Governador se recusa a renunciar e, ao invés disso, pede uma reunião com a rede de televisão. Com uma maleta muito recheada, o Governador faz uma proposta: uma doação polpuda para a Fundação da TV em troca de que eles parem de falar sobre o vídeo. Claro que, esse tipo de acordo não pode ser aceito. MAS, se o Governador quiser contratar um serviço de marketing, assessoria de imagem e publicidade política, o pessoal da TV pode ajudar já que têm experiência pois prestaram esses mesmos serviços a outros Governadores.

“Para nossos clientes do Governo, desenvolvemos vários pacotes de assessoria e posicionamento. Mas, na sua situação, eu recomendaria ir diretamente ao nosso plano Premium. […] Em poucas palavras: você destina 3% das participações federais e 50% dos gastos de comunicação social para nossa emissora. Nós oferecemos assessoria e posicionamento e um pacote de propaganda Prime Time. E o mais importante, administração de crise política como a que o Sr. está passando agora.”

Conflito de interesse, amigos, não existe. É tudo coisa da nossa cabeça.

O primeiro passo é encontrar uma notícia grande e das boas para “fazer com que o telespectador esqueça dos vídeos do Governador e pense em outra coisa”. Encontram um caso muito triste de duas gêmeas que foram raptadas do quintal de casa. O Governador, anuncia o jornal da tarde ao som de música de super-herói, encabeçou PESSOALMENTE o primeiro grupo de busca pelas meninas.

De repente, o editor do jornal televisivo está coordenando todas as ações da polícia e do procurador geral, transformando o caso numa verdadeira novela. Isso mesmo, o editor do jornal decide quando, como e onde a polícia vai agir e se é o melhor ângulo possível para as câmeras.

Rapidamente, o povo começa a ver o Governador como um homem de bem e qualquer assunto de corrupção desaparece.

O filme tem um enredo realmente bem escrito, escancarando uma mas maiores feridas das democracias – talvez mais perceptíveis nos países latinos onde o sistema ainda não é suficientemente firme – uma mídia com interesses específicos capaz de controlar o fluxo de informação e pendê-lo para seu próprio benefício. O filme consegue colocar isso de maneira genial e a expressão “na cama com o inimigo” ganha um sentido bem específico.

Alguns atores são reconhecíveis de outros filmes, de séries mexicanas e até mesmo de novelas. Mas o principal aqui é mesmo o roteiro engenhoso. A trilha sonora usa músicas conhecidas de comédias pastelão e de cenas dramáticas de novelas. Algumas cenas se estendem um pouco demais, mas o resultado final é realmente bom e dá o que pensar.

“Eu disse: beijar a bunda dos filhos da puta da TV foi o melhor investimento do meu Governo.” (Governador)

 

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