Semana de Cinema – A hora mais escura
por Poderoso
em 31/01/13

Nota:

images

“A hora mais escura” é um filme controverso que aborda um tema que se tornou uma obsessão norte-americana desde o fatídico 11 de Setembro de 2001: encontrar Osama Bin Laden. Como se sabe, em 02 de Maio de 2011 o Presidente Obama anunciou que a missão havia chegado ao fim e Osama estava, finalmente, morto. Os detalhes da operação, no entanto, foram trancados a sete chaves . Até agora.

Kathryn Bigelow (diretora do ganhador do Oscar “Guerra ao Terror”) entrevistou fontes primárias da CIA para entender os bastidores de uma operação secreta que já durava uma década. Através dessas entrevistas, Bigelow descobriu todas as ações tomadas para encontrar Osama com aprovação de uma enorme cadeia decisória.

Quando saiu o primeiro Tropa de Elite, o mundo todo comentou a cena em que um traficante era torturado com um saco de plástico na cabeça. Um site perguntou se o filme demonstra o lado fascista brasileiro, enquanto o New York Times debateu como as diferentes classes sociais brasileiras interpretaram o filme. Em um país com Guantánamo, a questão de tortura é debatida de maneira quase esquizofrênica – uma hora pode, na outra não pode mais.

É justamente aqui que está o trunfo de “A hora mais escura”: retratar a realidade terrível do que se deve fazer para encontrar um terrorista procurado há anos e graduado em fugir da CIA, não seria confortável – e não poderia ser. As pessoas podem até acreditar que os membros da Al Qaeda entregaram Osama por pura e espontânea vontade e que tudo não saiu de uma conversa tensa mas o filme desmistifica a CIA e expõe o que talvez nenhum americano queira ver.

Bigelow já foi chamada para depor no Congresso – que quer as fontes que ela utilizou para fazer o filme e muitos congressistas o abominaram porque acreditam que defende a tortura. Mas o filme foi feito com cuidado – as cenas de tortura são tão explícitas quanto o saco na cabeça do traficante mas os ângulos são escolhidos de maneira que apesar de sabermos o que está acontecendo, não precisamos ver tudo. Isso não tira o peso do que se está fazendo mas elimina parte do desconforto de quem assisti o filme.

A história é baseada em Maya – uma agente da CIA que desde que foi recrutada – 10 anos antes – tem como prioridade número 1 encontrar Bin Laden. É ela quem desvenda os detalhes da cadeia de proteção à Osama. A atuação de Jessica Chastain é no ponto certo – nem muito dura, nem muito leve.

Em suas quase 2 horas e meia de filme, “A hora mais escura” tem poucas cenas de ação. É um filme voltado para as decisões estratégicas da CIA e até mesmo a operação que finalmente encontrou Bin Laden é filmada do ponto de vista dos soldados, com pouca luz e sem muita excitação. Quando a notícia da morte de Osama chega no acampamento, não há a comemoração típica de quem acabou de salvar o mundo (pense na cena em que os americanos conseguem destruir a nave alienígena em Independence Day…nada parecido).

Tudo isso deixa claro que Bigelow – apesar de retratar a tortura – não a glorifica. Não há piadas sobre o assunto, nem comentários para justificar o que acontece. Tudo é relatado com frieza e não espere que Maya seja o gancho emotivo da história – ao descobrir onde Osama está, com mulheres e crianças, sua primeira opção é jogar uma bomba na casa. Maya pode não gostar da tortura mas não se emociona com nada disso, pelo contrário, parece ser uma das poucas que enxergam algo de bom nessa atitude – a heroína norte americana e a inimiga dos direitos humanos.

Postado em: Semana de Cinema
Tags:

Nenhum comentário em “Semana de Cinema – A hora mais escura”


 

Comentar