Semana de Cinema – Amantes
por Bruno Lisboa
em 29/05/15

Nota:

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Se os indícios de um bom filme residem logo nos seus primeiros planos o longa Amantes (Two lovers) cumpre essa premissa com louvor, pois a exímia sequência inicial dá o tom de tudo o que está por vir.

Lançado em 2008 o quarto filme de James Gray inicia de maneira enevoada na qual visualizamos parcamente um homem a caminhar ante a neblina matinal. Esta ação corriqueira é interrompida drasticamente a partir do momento em que o mesmo tenta se afogar, mas é salvo. Nesta feita, a cinematografia de Joaquin Baca-Asay (com quem o diretor já havia trabalhado em Os donos da noite) cumpre um papel fundamental, pois é a partir da mesma, imprensa logo nos minutos iniciais, que percebemos o tom acinzentado que domina a obra.

No roteiro idealizado por Gray em parceria com Richard Menello temos como foco um triângulo amoroso formado por Leonard Kraditor (Joaquim Phoenix, habitual colaborador do diretor), Sandra Cohen (Vinessa Shaw) e Michelle Rausch (Gwyneth Paltrow).

No centro desta narrativa, baseada em Noites Brancas Fiódor Dostoievski, está Leonard que sofre de depressão motivada pelo término de seu relacionamento. Abalado, o personagem acaba retornar à casa dos pais no Brooklyn e a trabalhar na tinturaria da família. Visivelmente infeliz, o mesmo encontra espasmos de felicidade na fotografia, ramo no qual almeja seguir carreira.

Sua malfadada rotina é alterada a partir do momento em que inicia o relacionamento com a passional Sandra, filha do parceiro comercial de seus pais, que surge como a possível redentora para Kraditor. Por mais que a mesma perceba a sensibilidade latente de Leonard e prometa cuidá-lo, sua vida ainda segue sem expectativas. A mesma muda drasticamente a partir do momento em que Michelle adentra sua vida.

Se a relação de Kraditor e Cohen é sem brilho, ao lado de Rausch o protagonista encontra a mola propulsora para a realização de seus sonhos. Tal como Leonard, Michelle está perdida. Vivendo uma relação adúltera, sua personalidade agitada e impulsiva acaba por revelar sua inquietude ante a vida. E é justamente nesta busca conturbada, infeliz e especular pelo amor onde reside a força do longa.

Para traçar o perfil deste amor construído na ótica do desespero Gray e Baca-Asay transmutam a cidade de Nova Iorque. Como exímios diretores de arte, qualidade habitual de seus filmes, ambos transformam a cidade que é famosa pelo brilho contínuo e ofuscante num local frio, sem vida.

Fugindo da ótica habitual hollywoodiana, a direção opta por uma iluminação opaca, numa cenografia ilustrada por ambientes fechados e escuros, tal como o quarto mal iluminado do protagonista.  Até mesma nas raras cenas externas, geralmente revestidas pelo neon dos anúncios como visualizamos em filmes de Woody Allen e Martin Scorsese, são dominadas uma luz fria, dourada e sem alcance que ilumina os amantes.

A câmera, por sua vez, registra em detalhes as atuações Phoenix e Paltrow que brilham ao inserir em seus personagens doses pontuais de ingenuidade, loucura e fragilidade característicos a aqueles que buscam desenfreadamente pelo amor correspondido.

Compactuando a verve dramática imprensa o diretor essencialmente opta pela ópera como trilha de fundo. A beleza das composições de Giacomo Puccini surgem em diversos momentos para embalar cenas de romantismo, tal como o momento em que Leonard descobre a preferência musical de Michelle e retorna ao apartamento com uma compilação do compositor clássico.

Tal como Closer, filme do finado Mike Nichols, Amantes é retrato amargo da contemporaneidade.

A estética sonhadora e feliz inerente ao cinema mainstream de ontem e de hoje passa longe desta obra que consegue de maneira brilhante, dolorosa e impiedosa expor o universo dos relacionamentos amorosos atuais.

Postado em: Semana de Cinema
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