Semana de cinema – Citizenfour
por Bruno Lisboa
em 23/11/15

Nota:

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Atualmente encontro-me imerso em um estudo sobre como a internet modificou o comportamento humano, muito devido a leitura de Como a música ficou grátis. Porém o ponto de vista apresentado pela grande mídia diariamente visa expor o lado ruim da internet, proferindo, em sua maioria, inverdades sobre o seu real potencial. Em contrapartida, há trabalhos que são capazes de expor o outro lado da moeda e o documentário Citizenfour é um exemplo desta seara.

Dirigido por Laura Poitras e com produção executiva de Steven Soderbergh,  Citizenfour fecha a trilogia sobre os Estados Unidos iniciada com My country, My country The Oath. A obra é resultado de anos de pesquisa por parte de Poitras sobre o invasivo, secreto e paranóico programa de monitoração pessoal criado pelos norte americanos (a NSA, Agência de segurança nacional) após o atentado de 11 de setembro.  Para concluir sua investigação a diretora contou com apoio dos jornalistas Glenn Greenwald e Ewen MacAskill (ambos do The Guardian. Greenwald escreveu o livro Sem lugar para se esconder lançado no Brasil pela Sextante em que fala sobre o tema espionagem, NSA e etc) e um dos maiores hackers da história: citizenfour, cujo nome real é Edward Snowden. Ex-funcionário da CIA, Snowden foi responsável por inúmeros vazamentos de documentos confidenciais para a imprensa que, em grande parte, continham informações omitidas e ações secretas governamentais.

O longa é resultado de quatro dias de entrevistas realizado em um quarto de hotel em Hong Kong onde Snowden traz à tona não só sua real identidade (até então secreta) como também expõe para Poitras, Greenwald e MacAskill documentos que revelam o programa americano no qual todo e qualquer cidadão em escala mundial estaria sob vigilância através da internet e telefones celulares. O The Guardian, aliás, mantém uma coluna atualizada com certa frequência sobre assuntos relacionados a agências e operações de inteligência.

Com ares de thriller, digno de ficção científica como 1984, clássico de George Orwell,  à medida em que a verdade começa a surgir na imprensa o omisso governo americano se sente pressionado e inicia uma verdadeira caça às bruxas visando os detratores da verdade escondida, fazendo com que mandatos de prisão e pedidos de exílio de última hora fossem emitidos.

Por mais que o longa careça de ritmo em dados momentos e por vezes usufrua demasiadamente de termos técnicos em sua narrativa, o resultado desta ousada e poderosa empreitada acabou por ser largamente positivo. Não só pelo caráter de premiação (o documentário recebeu neste ano um Oscar da categoria documentário e a reportagem sobre o caso rendeu um Pulitzer, prêmio máximo do jornalismo), mas por trazer para o grande público uma das discussões mais importantes dos tempos atuais: o direito a liberdade.

Para além do caráter alienante, que muitos gostam de pontuar, a internet (quando bem utilizada) serve não só como veículo de propagação de informações como também é instrumento de apuração para aqueles que não se rendem a meias verdades e buscam a todo custo a transparência. Enquanto houverem pessoas corajosas, como as envolvidas na produção de Citizenfour, o mundo não estará totalmente perdido.

Postado em: Semana de Cinema
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