Semana de Cinema – Culture high
por Patricia
em 25/05/15

Nota:

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O debate sobre legalização de drogas não é novo. Teve ares de guerra civil nos Estados Unidos na década de 80 e segue o mesmo ritmo no Brasil até hoje. Quando notaram que extrema violência não parecia resolver o problema, vários países começaram a debater alternativas ‘fora da caixa’ para lidar com essa questão. A Europa, principalmente Holanda e Suíça, desenvolveram serviços e estruturas revolucionárias para lidar com usuários e drogas.

O documentário Culture High, disponível no Netflix, olha para o mercado da maconha principalmente nos Estados Unidos. Entrevistando diversas personalidades e médicos especializados, o diretor Brett Harvey mostra uma realidade diferente daquela que o Governo americano pretende ou pretendia passar até agora.

A verdade é que recentemente, entrou na equação uma força não esperada e não antecipada pelos políticos: a internet. O debate sobre a maconha mudou de 20 anos para cá. Quando antes apenas aceitávamos o que os jornais e revistas nos diziam, hoje temos pleno poder de acessar informações que os meios de comunicação possam ter julgado como “desnecessários” antes. Hoje, cada um pode obter informações sem edição e sem um filtro ideológico por trás da mídia padrão.

Isso tem aspectos positivos e negativos (algo que já foi debatido muito além do que pretendo abordar nesse post).

O documentário nos apresenta médicos e pesquisadores que são muito claros em dizer que maconha não é o demônio. Não existe nenhum caso de alguém ter morrido por overdose de maconha em nenhum lugar do mundo. Mas muitas pessoas morrem de doenças relacionadas ao tabaco (que é legalizado), a bebida alcoólica (que é legalizada) e a drogas prescritas por médicos (que também são legalizados) todos os dias. Por que, então, a maconha gera tanto rebuliço?

Me recordo há muitos anos de uma matéria de capa da Veja que colocava a maconha como “porta de entrada para drogas mais pesadas”. Esse ainda parece ser o discurso escolhido pelo semanário. Apesar de que no final da década passada, diversos estudos já sugeriam algo diferente. O documentário vai mostrar como, na verdade, esse discurso padrão que a mídia defende há anos auxilia apenas um lado da moeda: o do traficante.

A ligação é mais ou menos a seguinte: digamos que a maconha seja legalizada. Digamos que o governo regule a compra e a venda com, talvez, impostos de produção ou no produto final – como fazem com as drogas lícitas. Quem lucra com isso? O Governo. Além disso, sabe-se muito bem quem faz, quem compra e onde a droga estará disponível. É possível até ter um controle de qualidade. Mas na situação que estamos hoje, sem controle nenhum, quem ganha? O traficante que continua recebendo 100% dos lucros, não paga nenhum imposto ou algo do tipo e ainda precisa manter um aparato quase militar para garantir que a operação continue.

Nem mesmo o usuário ganha porque não se sabe a procedência e nem a qualidade do produto que está comprando. Lembrando que a questão do “proíba e as pessoas param de usar” é extremamente inocente e estou pressupondo que os leitores desse blog não sejam adolescentes que apenas repetem tudo o que os pais lhes dizem. Se proibir, apenas, desse resultado não teríamos um problema de tráfico, não é mesmo? Portanto vamos pensar mais longe. Vamos pensar em Governos lidando com a maconha como lidam com remédios tarja preta (que, conforme comentei ali em cima, realmente têm mortos para mostrar).

Além da questão de lucro, há também o debate de segurança. O documentário nos mostra que a maconha é uma das maiores fontes de renda de organizações criminosas como os grandes e poderosos cartéis mexicanos. Imagine o que aconteceria se essa fonte de renda sumisse? Imagine se amanhã aqueles milhões de dólares entrando pelo pipeline da maconha, fossem transferidos para os cofres públicos e o Governo, por sua vez, pudesse usá-lo para…não sei…fazer algo decente (pressupondo um Governo decente, algo que também vale um debate mais intenso em outra oportunidade).

Há dois problemas para que isso possa ser transformado em realidade: o primeiro é a desinformação alinhada ao preconceito. Muitas pessoas têm opiniões sobre a maconha formada com base em nada. Aceitam de bom grado o discurso padrão sem questionar, sem procurar mais informações. Esse preconceito, por si só, gera uma barreira quando qualquer um tenta abordar o assunto da descriminalização. Assim, Governos populistas fogem desse debate usando o argumento de que a maioria da população rejeita a mudança.

O outro problema é estrutural: é sabido que e a fortuna da droga passa, também, por políticos e pela polícia. Há diversos casos de políticos e policiais envolvidos no tráfico e que recebem dinheiro desse processo de compra e venda de drogas ilícitas. E dinheiro ilícito é muito melhor que dinheiro lícito, não é mesmo?! É só aplicar no HSBC e fingir que nunca viu.

O debate continua girando em torno de: será que a maconha é mesmo tão terrível assim?

Governos que querem manter o status quo dizem que sim. Médicos e pesquisadores que lidam com a droga de longa data dizem que não. É muito sugestivo em quem escolhemos acreditar quando o assunto vem à tona. E muito mais sugestivo que poucos consigam mostrar o cordão inteiro que une o discurso de criminalização ao processo político em si. Culture High consegue fazer isso com muita propriedade e levanta boas questões. Questões reais e que têm valor no debate.

Uma ótima obra, bem roteirizada, com boas escolhas de entrevistas e que escancara as feridas e o ranço desse debate sem dó.

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