Semana de Cinema – Eles não usam black tie
por Thiago
em 25/06/14

Nota:

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Sei que pros mais jovens pode ser difícil ver um filme mais velho, ainda mais um nacional, mas garanto que este vale muito a pena. É o filme brasileiro que eu mais gosto, não necessariamente o melhor, mas o que mais me encanta, pois combina três pontos de extrema importância: bons atores (claro que nem todos), bom texto e a preocupação com os detalhes, ou seja, boa direção.

A proposta do filme é bem simples, aparentemente datado mas ainda muito atual: São Paulo, mas poderia ser outra cidade grande qualquer do Brasil  no fim da década de 70, dois jovens namorados de periferia e bem apaixonados, ao descobrir que estão esperando um bebê  decidem se casar, no caso o operário Tião (Carlos Alberto Riccelli) e sua namorada Maria (Bete Mendes). Ao mesmo tempo, eclode um movimento grevista que divide a categoria metalúrgica. Preocupado com o casamento e temendo perder o emprego, Tião fura a greve, entrando em conflito com o pai, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), um velho militante sindical que passou três anos na cadeia durante o regime militar.

Por falar em Gianfrancesco Guarnieri, o filme é uma adaptação feita pelo próprio Gianfrancesco e pelo diretor Leon Hirszman, de uma peça de mesmo nome escrita e encenada em 1958, também pelo Sr. Guarnieri.

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O filme conta com um elenco incrível, como Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Milton Gonçalves, Bete Mendes, e claro o Gianfrancesco, além de um monte de gente boa.

Voltando a história desse filme que ganhou muitos prêmios em festivais nacionais e internacionais, temos alguns elementos que merecem uma atenção especial, o conflito principal é a divergência de posição entre pai e filho a respeito da greve, do sindicato, da postura perante o mercado de trabalho. Em torno disso os personagens e os conflitos paralelos são construídos, como os problemas trabalhistas e a conjuntura econômica da época, que é mostrada de leve, apenas como contexto. O espectador atento aos detalhes consegue entender a profundidade das camadas presentes na história, como o abuso policial corriqueiro na periferia ao dar uma dura em pessoas que não estavam fazendo nada, a importância social do buteco, o feminismo e como nasce no Brasil o movimento trabalhista. Também é interessante prestar atenção em como é caracterizada a periferia, como os detalhes são um texto repleto de palavras não ditas, a rua sem asfalto, a parede da casa sem pintar, o sofá usado de cama, os poucos móveis nas casas e principalmente a construção meticulosa do personagem Tião. A vida dos outros operários se dá entre casa, trabalho, bar e casa, enquanto nosso fura greve começa o filme saindo do cinema com sua amada Maria, onde era exibido Star Trek, o filme de 1979, com William Shatner, Leonard Nimoy e Deforest Kelley no cartaz. Tião era o único que buscava uma outra vida de maneira individual, enquanto os outros, principalmente seu pai, lutavam por melhores condições de trabalho e não por um melhor emprego ou por uma outra vida longe dali.

Eles não usam black tie, por mais que tenha um caráter político não se trata de uma obra panfletária, que busca propagar ideais, a greve e os direitos do cidadão são um pano de fundo para retratar as relações humanas. Vale como curiosidade saber que foi a partir da peça, não do filme, na década de 50, que a periferia começou a ser retratada e ganhar voz, no quesito luta por direitos. Perceba a diferença histórica da época da sociedade brasileira retratada no filme e na peça de teatro; no filme somos levados ao período do fim da ditadura, uma época de transição e vários movimentos sociais, como as greves retratadas no mesmo, já no teatro estamos num período pré ditadura.

Em meio a tudo isso, a história é sobre família, mais especificamente a relação entre pai e filho, seja de Seu Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) com Tião (Riccelli) ou de Tião com o filho que está na barriga de Maria, ou ainda de Maria com seu pai.

Um filme tão rico em detalhes, que nos dá uma aula de História, mas no fundo quer nos falar sobre ser pai, como influenciamos positivamente e negativamente nossos filhos (nossos pera lá José, afinal ainda não sou pai). Já pararam pra pensar em como muitas coisas, detalhes do nosso modo de ser, escolhas que fizemos foram por causa simplesmente dos nosso pais? Tião por ver seu pai, um sindicalista, comunista, que lutava pelos direitos do povo, tantas vezes preso negava as crenças do pai justamente para não passar pelo que o pai passava, para não fazer seu futuro filho sentir aquilo que ele sentia quando o Seu Otávio era preso.

Durante este filme sobre paternidade não deixe de prestar atenção nas musicas que ajudam a criar o clima das cenas de uma maneira incrível, compostas por Chico Buarque, Adoniran Barbosa e claro Gianfrancesco Guarnieri.

Bom filme a todos!!!

 

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