Semana de cinema – Garota exemplar
por Bruno Lisboa
em 26/06/15

Nota:

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Com carreira iniciada nos primórdios da era do videoclipe, David Fincher sempre fora inovador. Para tanto, basta fazer um breve retrospecto: sob sua direção e ótica Rolling Stones (“Love is Strong”), George Michael (“Freedom 90”) e Madonna (“Express yourself”), entre outros, ganharam representações fílmicas revolucionárias para época, com largo apelo visual.

Os predicados nesta seara fizeram com que hollywood o convidasse, já na década de 90, para dirigir o terceiro filme da franquia Alien. O resultado alcançado no longa é razoável, pois não deixa claro o seu potencial que seria lapidado em seu próximo trabalho: Seven – os sete crimes capitais.

Um autêntico clássico dos anos 90, Seven trouxe à tona características definidoras de sua elogiada filmografia: roteiros intricados e hermeticamente bem construídos, o caráter metódico de filmagem, atuações acima da média e trilha condizente. Fazem parte deste seleto grupo obras como Vidas em jogo, Zodíaco, Rede social e Os homens que não amavam as mulheres e agora o mais recente Garota exemplar.

O roteiro escrito por Gillian Flynn, , segue à risca a adaptação de seu livro (lançado aqui pela editora Intrínseca e já resenhado no Poderoso), obra no qual promove uma verdadeira elegia a dualidade humana. No campo central temos o casal Dunne Nick (Ben Affleck), um autêntico americano machista inveterado, e Amy (Rosamund Pike), a adorável garotinha do papai, que vivem a crise de um casamento que se esfacelou no decorrer dos anos. Ambos vivem de aparências que mascaram a infelicidade da relação.

A malfada rotina é drasticamente alterada a partir do desaparecimento de Amy, justamente no dia de aniversário de casamento. À medida em os dias passam, a investigação segue inúmeras evidências que apontam para Nick como possível assassino. Deste momento em diante o tempo se torna inimigo de Nick que busca, desenfreadamente, provas de que ele não fora o responsável, tentando provar à todos que o insensível monstro que a imprensa local construiu não existe.

Como todo bom thriller, Fincher estabelece em Garota exemplar uma linha de tensão interminável ao longo de seus 149 minutos. Novos fatos e argumentos ante ao crime se sobrepõem por todo o tempo, fazendo com que a narrativa flua freneticamente, deixando o espectador em estado de transe, completamente imerso a narrativa até o surpreendente fim. Para criar o tom ainda mais preciso, inerente a filmes deste gênero, a trilha de Trent Reznor e Atticus Ross (repetindo a parceria iniciada em Rede social e Os homens que não amavam as mulheres) cria a ambientação correta e surge em momentos cruciais.

Outro trunfo de Fincher, exímio diretor de atores, foi retratar de forma magnífica as atuações de Ben Affleck e Rosamund Pike. O calculismo impresso por ambos abrilhantam a frieza necessária para a construção de personagens cuja vivência é dúbia e misteriosa, onde as inúmeras verdades ditas são colocadas em xeque o tempo todo.

Angustiante do início ao fim, Fincher faz de Garota Exemplar uma perfeita ode aos tempos atuais no qual as relações humanas estão putrefatas, deficientes e, ainda assim, mais expostas graças ao caráter sensacionalístico que, a torto e a direito, impera na mídia televisiva.

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