Semana de Cinema – Marighella
por Patricia
em 25/11/13

Nota:

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A sobrinha de Marighella – Isa Ferraz – conheceu pouco seu tio. À medida que cresceu, ouviu as histórias e decidiu investigar melhor esse personagem tão controverso na História do nosso país: heróis para uns, mero ladrão de bancos comunista para outros. Esse documentário engloba o que Isa encontrou em sua pesquisa.

Desde muito cedo, Carlos Marighella se interessou por questões sociais. Filho de um imigrante italiano com uma negra baiana filha de escravos, ele parecia carregar na veia o asco por injustiça. Com 20 e poucos anos, largou a faculdade de engenharia para filiar-se ao Partido Comunista Brasileiro.

Na época, o Brasil vivia o que ficou conhecido como Era Vargas (impressionante que poucos referem-se àquela época como ditadura) e começou aqui a incrível jornada de Marighella contra a opressão – onde quer que ela estivesse. Preso duas vezes durante essa época, ele foi libertado em 1945 graças ao processo de anistia. Incrível como o Brasil gosta de uma anistia. Talvez seja preguiça de investigar as coisas mais profundamente?

Foi eleito deputado federal em 46 mas perdeu o mandato em 48 quando o Governo declarou seu partido “ilegal”. Passou um período na China a convite do Comitê Central para conhecer mais profundamente a Revolução Chinesa. Quando se desvinculou do PCB, fundou a Ação Libertadora Nacional – grupo armado que visava minar o poder da ditadura através de assaltos a bancos que cooperavam com o governo e sequestro de dirigentes e embaixadores para trocá-los por presos políticos. Foi alçado ao posto de inimigo número 1 do Brasil.

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Sua captura se deu através de uma série de eventos: um militante foi preso com um número de telefone anotado em um canhoto de cheque. O telefone era de um convento em São Paulo. A polícia prendeu todos os freis que viviam ali. Presos e torturados, nem todos conseguiram ficar em silêncio. Aliás, o Frei Fernando citado no documentário é o autor de Diário de Fernando que já comentamos aqui. Em seu livro, Frei Fernando comenta sobre o processo de caça a Marighella e como a ditadura parecia um cachorro raivoso correndo perseguindo-o por todo o canto. Enquanto Marighella vivesse, havia uma clara idéia de que a resistência era possível.

Em 1996, o Governo reconheceu a responsabilidade pela sua morte e Clara Charf (companheira de Marighella e também militante procurada pela política – aqui tem uma entrevista boa com ela que saiu em Janeiro desse ano na Revista TPM) passou a receber uma pensão vitalícia. Em 2012, o Ministério da Justiça concedeu a Marighella o status de anistiado.

Acredito que seja inegável a importância da oposição durante a Ditadura. Como um dos entrevistados comenta: muitos dos movimentos sociais da História do Brasil falharam, sim,  mas cada um contribuiu de alguma maneira para que o próximo fosse um pouco melhor. Concordando ou não com os métodos utilizados, é importante conhecer as motivações, suas formas de organização e o que almejavam para que o debate não perca o foco. É mais ou menos o que vemos hoje no Brasil com os black blocks. O debate vai muito além do ato de quebrar um banco de uma praça pública.

O documentário tem muitas entrevistas daqueles que conviveram com o militante até o final de sua vida. Alguns o estudaram, outros o colocaram como mentor mas todos foram afetados de alguma maneira. O viés pessoal do documentário fica em segundo plano graças a essas entrevistas e, apesar de ter momentos sensíveis, o foco não parece ser ‘fazer o telespectador chorar’ e, sim, apresentar o marido de Clara, o tio de Isa, o guerrilheiro mais procurado do Brasil.

O documentário está disponível na íntegra no youtube:

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