Semana de cinema – Melhores inimigos
por Bruno Lisboa
em 26/04/16

Nota:

64

 

Atualmente o jornalismo brasileiro vive um de seus mais tenebrosos momentos já vistos. Com desapontamento visualizamos, a olho nu, um grande circo midiático, sustentado por inverdades e parcialidades políticas, atitudes estas que confundem as massas e que muito se distanciam da real função da profissão.

Em momentos polarizados como este que vivemos, seria de grande valia ouvir os dois lados para que chegássemos a um denominador comum. Houve um tempo em que a televisão, em seus tempos áureos, era responsável por  trazer para o grande público o debate entre ideias opostas, deixando para o espectador o poder da decisão de qual rumo seguir. Um das melhores retratações desta época é o documentário Melhores inimigos.

Dirigido e roteirizado por Morgan Neville e Robert Gordon, o longa demorou cinco anos para ser finalizado, tem como ponto central os dez debates televisivos promovidos pela rede americana ABC no ano de 1968 no qual os escritores William F. Buckley Jr. (conservador) e Gore Vidal (liberalista) que discutiam o rumo dos EUA durante a campanha presidencial daquele ano onde Richard Nixon e Ronald Reagan disputavam o posto.

Intermediado pelo âncora Howard K. Smith, o elogiado jornalista fora responsável por conduzir o diálogo entre os intelectuais que defendiam a ferro e fogo o seu posicionamento. Como num autêntico embate entre forças, mas sem necessariamente taxar um ao outro a figura de herói ou vilão, a cada programa ambos buscavam superar um ao outro através de argumentos que buscavam ser demolidores e incontestáveis. Para além da campanha presidencial temas da época como a Guerra do Vietnã, as mortes de Martin Luther King e Bobby Kennedy e o turbulento período de protestos também foram objetos de discussão.

Para além dos programas, acertadamente o roteiro explora não só o universo do debate como também  apresenta detalhes da vida pessoal de Buckley e Vidal. Por mais que ambos tenham origens semelhantes (ambos vieram da classe média/alta americana), Vidal e Bucley detinham personalidades distintas sendo Buckley verborrágico e Vidal contido e pontual . Como é retratado durante o filme “William F. Buckley Jr. foi o maior debatedor de sua época; Gore Vidal, o maior orador” e isto contribui para a qualidade da discussão que, em sua reta final, tornou-se acalorada por demais, com ofensas perpetuadas pelas duas partes.

O pioneirismo nesta seara elevou a rede ABC ao status de grande emissora devido a grande audiência alcançada e acabou por popularizar o debate televisivo. Por mais que falte ao longa um tom de crítica melhor elaborado ao formato dos debates atuais que hoje, infelizmente, surgem de maneira desvirtuada na grande mídia devido ao sensacionalismo barato ou a parcialidade injustificável, Melhores inimigos é um grande exemplo do grande poder que televisão detém e de que como ele pode ser utilizado de modo benéfico para o público espectador.

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