Semana de Cinema – O dia que durou 21 anos
por Patricia
em 22/04/13

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O dia que durou 21 anos apresenta o papel dos Estados Unidos no golpe de 64 – algo que muitos brasileiros já defendiam há algum tempo e outros dizem que não passa dessas teorias de conspiração.

Muito gira em torno do Embaixador Lincoln Gordon que estava convencido de que Goulart estava próximo demais da esquerda e avisou o então presidente Kennedy que Goulart não facilitaria acordos com os EUA e poderia estabelecer no país um governo comunista (aliás, muitos acreditam que o Embaixador era membro da CIA e estava no Brasil não para criar relações entre os dois países mas para ficar de olho em possíveis rebeliões comunistas).  Em uma reportagem local, o narrador diz com todas as letras “Cuba se foi. Se o Brasil for, levará toda a América do Sul.” Com medo de outra revolução comunista em seu quintal, os Estados Unidos agiram.

Esse medo só aumentou quando Bocayuva Cunha – líder do governo Goulart – veio a público dizer que em uma guerra EUA X Cuba, o Brasil apoiaria Cuba pois nossa política externa era brasileira e defendia apenas nossos interesses – “Brasil acima de tudo”.

Devemos lembrar que na década de 60, a URSS assustava terrivelmente os EUA por seu poderio militar avançado. Por isso, acreditavam que quanto mais países “caíssem” nesse movimento comunista, mais a segurança dos países capitalistas estaria ameaçada. Pelo tamanho e influência de nosso país na região, o Brasil era visto não como a próxima Cuba, mas como a próxima China.

Goulart recusou-se a ouvir qualquer tipo de argumento norte-americano contra o comunismo.

Acredita-se que a propaganda política distribuída antes do golpe militar fosse amplamente apoiada pela CIA e focava em criar instabilidade de maneira a aumentar a pressão da oposição e derrubar o governo eleito. “Foi ali que começou a queda do Jango….quando viram que ele tinha o povo do lado dele.”

E não pense que o documentário entrevista apenas os esquerdistas não. Plínio está aqui, claro. Mas também temos ex-militares, estudiosos, historiadores e o arquivista chefe da Casa Branca que teve acesso aos documentos do governo norte-americano da época. Com fotos históricas, áudios inéditos de conversas entre oficiais norte-americanos e um bom roteiro, o filme desbrava um assunto, de certa forma, tabu no golpe de 64: os militares acreditavam que estavam revolucionando a democracia brasileira e que estavam defendendo o país do comunismo (falamos sobre a visão dos militares na resenha de O outro lado do poder), mas pouco se comenta sobre o papel de forças estrangeiras. Talvez porque, por mais que os EUA tivessem navios esperando na costa brasileira para auxiliar os militares, a ajuda não foi necessária. Quando avisado do golpe, Jango fugiu e o país passivamente foi entregue  a um novo governo ditador.

De fato, não me recordo em nenhum momento dos meus estudos na escola de sequer ser mencionada a ajuda norte-americana nesse processo. E, para aqueles que continuam repetindo o credo de que brasileiro é acomodado e todos esses lugares comuns, é importante saber que as passeatas pela democracia foram constantes nos mais de 20 anos de ditadura e repressão. Aliás, a frase que abre o documentário é icônica: “Aqueles que não amam a revolução devem, ao menos, temê-la.” No fim, foi a revolução das ruas que prevalesceu.

Golpe militar

Claro, havia uma parcela da sociedade brasileira que apoiava os militares – sempre tem uns – mas é de arrepiar saber mais sobre as possibilidade do que aconteceu em nosso país e quão fácil foi para as forças militares tomarem o poder e mudarem nossa história de uma forma tão drástica nos colocando na mesma pasta deprimente com os demais países latinos americanos. Esse  tipo de documentário é importante para trazer mais informações ao debate e, principalmente, manter fresca a memória de um passado tão dramático de um país que muda a passo de tartaruga e ainda mantém aberta algumas das feridas dessa época.

Postado em: Semana de Cinema
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4 Comentários em “Semana de Cinema – O dia que durou 21 anos”


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Gabriel em 22.04.2013 às 09:55 Responder

A parcela da sociedade que apoiava o regime era a mesma de sempre: a elite que se beneficia do status quo. Para essa discussão recomendo fortemente o Cidadão Boilesen, que eu resenhei aqui também 😉
Boa resenha, Paty!

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Paty em 22.04.2013 às 10:12 Responder

Always. Mas o triste é que fui pesquisar os comentários da mídia americana sobre esse documentário e muitos dizem “bom…a gente apoiava…mas tinha brasileiro que apoiava também…” quer dizer….¬¬ puro mimimi de quem não quer assumir nem 10% de responsabilidade.
Eu já tô com o Cidadão Boilesen…vou tentar assistir logo. 😀

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Rafael Assis em 23.11.2017 às 13:03 Responder

Esse resumo está errado!

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Patricia em 23.11.2017 às 13:22 Responder

O texto é uma opinião. Tudo bem se você discorda do conteúdo.


 

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