Semana de cinema – O rei da comédia vs. Tá rindo do quê?
por Bruno Lisboa
em 30/05/15

Nota:

download (1)

Desde as raízes do idealismo norte-americano, todo cidadão local tem para consigo os Estados Unidos como a “terra das oportunidades”. Sob esta ótica, o trabalho pode proporcionar que qualquer cidadão alcance sucesso ou o seu mais remoto sonho.

Seja via o trabalho árduo (passo a passo) ou pelo caminho mais fácil (instantâneo) o cinema nas terras do Tio Sam soube no decorrer de anos de bons serviços prestados discutir os caminhos adotados por aqueles seguem a cartilha da ambição. Bons exemplos desta seara são os longas O Rei da comédia e Tá rindo do quê? que trazem como pano de fundo a cena stand up comedy norte americana.

Lançado em 1982, dirigido por Martin Scorsese e roteirizado por Paul D. Zimmerman o filme traz um retrato O rei da comédia opta por traçar um perfil sombrio do universo da comédia.

Em seu cerne temos o embate entre Rupert Pupkin (Robert De Niro), um aspirante a comediante, que vê na figura de Jerry Langford (Jerry Lewis), apresentador de um talk show consagrado, como um trampolim para o sucesso.

Apostando suas fichas numa apresentação que nunca foi apresentada ao grande público, o egosísta Pupkin acredita que a conquista do aval de Langford lhe creditará a uma apresentação no programa e renderá todos os louros possíveis para sua carreira no universo do stand up.

Para retratar a busca desenfreada, sonhadora e irracional pelo sucesso por parte de Pupkin temos Robert De Niro numa das melhores atuações de sua carreira. Abandonando o lugar comum de suas atuações em parceria iniciais com Scorsese (Caminhos perigosos, Touro indomável e Taxi Driver) De Niro abandona a truculência habitual para emprestar sua versatilidade a um autêntico psicopata que se esconde por trás de uma figura simpática e ingênua.

Em contrapartida temos o mestre da comédia Jerry Lewis que de modo surpreendente abandona sua zona de conforto imprimindo ares serenos e introspectivos ao seu personagem. Se Pupkin busca o sucesso a qualquer preço, Langford está fatigado do mesmo, pois sua vida é vazia e solitária.

Tal como a dupla de atores protagonistas em O rei do comédia temos Scorsese aventurando em novos terrenos. Novamente temos a cidade de Nova Iorque como locação, mas a filmagem acelerada, violenta e aberta de outrora dá lugar a planos fechados que captam em minuciosas as atuações.

Mesmo que o longa não tenha alcançado o merecido sucesso na época e tenha um final controverso, O rei da comédia segue como um dos exercícios mais sardônico a cerca da indústria das celebridades.

Tal filme do Scorsese Tá rindo do quê?, de Judd Apatow, também vai de encontro ao universo da comédia.

download

No roteiro temos como figura central George Simmons (Adam Sandler) um famoso comediante stand up que ganhou fortuna ao realizar filmes de comédia besteirol. Tal como o personagem de Jerry Lewis, Simmons apesar da fama é um ser solitário e arrogante. Sua vida é transformada a partir do momento em que é diagnosticado com leucemia e lhe é dito que restam poucos meses de vida caso o tratamento experimental não funcione.

Visando transferir o seu legado Simmons vê na figura de Ira Wright (Seth Rogen) alguém com largo potencial a ser desenvolvido. Diferente da figura lunática de Pupkin, visualizamos em Ira, um iniciante no universo do stand up, alguém que busca o seu lugar ao sol, mas que batalha arduamente por ele. Noite após noite o espectador observa o mesmo se apresentando de maneira gratuita em clubes, fazendo da plateia o seu laboratório vivo para os seus textos e conquistando assim o seu público cativo.

Se em O rei da comédia a relação entre os protagonistas é combativa e destrutiva, temos em Tá rindo do quê? o caráter de cumplicidade  predominante, pois temos na figura de Simmons o verdadeiro e clássico anti-herói que passo à passo se humaniza a partir da amizade Wright, reconhecendo seus próprios erros e aprendendo com eles. Tal virtude só se constrói graças a grande empatia desenvolvida por Sandler e Rogen que emprestam o seu já habitual carisma e o timing para comédia.

Diferente dos outros longas no qual roteirizou e dirigiu, temos aqui um Apatow maduro e ambicioso. Em seus 146 minutos de projeção, mesmo que o diretor não abandone o seu estilo cômico habitual como diretor, o mesmo aposta numa verve dramática ao tratar de maneira honesta a mortalidade humana. Tal como Scorsese o realizador de Ligeiramente grávidos opta também por uma câmera em close para expor as angústias vívidas pelo protagonista.

Por fim, ambas as obras de maneira geral expõe de maneira realista a ambição humana que é potencializada via a busca pelo sucesso. E de fato é interessante que a própria indústria do entretenimento esteja interessada, por vezes, em refletir sobre si mesma.

Seja de maneira branda ou abrupta, Tá rindo do quê? e O rei da comédia , respectivamente, conseguem de modo abrangente cumprir o seu papel ao refletir determinas ideologias vigentes na contemporaneidade.

Postado em: Semana de Cinema
Tags: ,

Nenhum comentário em “Semana de cinema – O rei da comédia vs. Tá rindo do quê?”


 

Comentar