Semana de Cinema – Pequenas grandes mentiras
por Patricia
em 25/04/17

Nota:

 

No começo do ano passado resenhei a obra Pequenas grandes mentiras de Liane Moriarty. Achei o livro razoável e apesar de alguns probleminhas com a narrativa que comento melhor na resenha, gostei da leitura. E aí vem a HBO e transforma essa história em algo muito mais elevado. Em 7 episódios, conseguiram adequar o enredo sem perder a história completamente e ainda melhorar alguns pontos que o livro deixou solto.

Para uma sinopse completa da história e opiniões sobre o livro, dê uma olhada na resenha que postei aqui no Poderoso em 2016.

O texto de hoje contém alguns spoilers. 

No livro, a história se passa na Austrália mas a HBO adaptou a série para Malibu aproveitando um cenário de tirar o fôlego com casas impressionantes. No estilo tv-padrão, os episódios foram ao ar um por semana – durante sete semanas. O roteiro foi bem adaptado o suficiente para que cada episódio deixasse um fio solto para o seguinte criando certa expectativa. Apesar de estar acostumada com o novo estilo Netflix de sentar e ver uma série do começo ao fim, degustei cada episódio e pensei muito sobre a história entre uma semana e outra. Essa é uma série que ganha muito com esse tempo de análise porque há muito a ser digerido.

Pequenas grandes mentiras é uma série sobre mulheres contadas por mulheres. Os personagens masculinos – tirando o marido de Celeste – são quase secundários. Digo “quase” porque eles ainda têm algum papel em conduzir alguns enredos específicos, mas são Celeste, Jane, Madeleine, Bonnie e Renata que protagozinam os principais enredos.

Celeste e Perrie são daqueles casais de comercial de margarina: lindos, bem-sucedidos com dois filhos fofos. Mas tudo azeda quanto temos uma visão real do que acontece por trás das cortinas: Perrie é violento e espanca Celeste quando sente que está perdendo o controle de alguma situação. As cenas do casal na terapia são fantásticas. Não apenas pela atuação excelente de Nicole Kidman e Alexander Skarsgard mas porque essas cenas demonstram um discurso muito padrão de abusador e vítima: ele reforçando que quer mudar sem nunca mudar realmente e ela criando desculpas para o comportamento dele assumindo parte da responsabilidade ou associando os casos de violência a um amor muito passional. Eu diria que, de um ponto de vista social, essas são as cenas mais importantes da série porque retratam a história de muitas mulheres que se encontram em situações similares e apresenta bem a dificuldade que às vezes a própria vítima tem de se reconhecer como tal. Afinal, a sociedade não gosta de vítimas, não é mesmo?!

Em paralelo a isso, temos Jane que tenta se recuperar do trauma de ter sido estuprada e engravidado do estuprador. Ao ser mãe adolescente, ela passou a carregar sozinha o fardo da criação de seu filho – Ziggy. Quando Ziggy é acusado de machucar uma menina na escola – a filha de uma das mulheres mais poderosas da sociedade, Renata – Jane se desespera achando que algo da essência má e doente do pai possa ter passado para o filho de alguma forma. Será que Ziggy machucou a menina porque o pai dele era um abusador? Esse questionamento leva Jane a enfrentar o que ela vinha remoendo desde o nascimento de Ziggy: sua condição de vítima de um estupro o que, por sua vez, a faz ter pesadelos constantes e decidir se quer vingança e qual seria a melhor maneira de se curar.

Temos ainda outras três personagens interessantes na narrativa: Madeleine, dona de casa tentando se adequar a ser mãe de uma adolescente que quer uma reaproximação com o pai que as abandonou (Nathan), Bonnie , esposa de Nathan que é mais nova e tenta curar algumas feridas do passado que seu marido possa ter criado; e Renata, uma verdadeira mulher de negócios, bem sucedida e a mãe que trabalha mas é confrontada com a culpa pelo seu sucesso (e muitas vezes também sente o ressentimento de outras mulheres).

As mulheres dessa história carregam muitas complexidades. Nenhuma é apenas a esposa ou a mãe ou a vítima, ainda. A série reforça que elas são membros atuantes de suas comunidades e sustentam as responsabilidades e seus papéis com seriedade. O ponto de vista delas mostra uma sociedade que é, basicamente, carregada por mulheres que duvidam de si mesmas o tempo todo por diversos motivos. Será que elas são mães o suficiente? Amantes o suficiente? Esposas o suficiente? Fortes o suficiente?

Além do enredo, a série ganha muito com uma trilha sonora absolutamente espetacular. No hotsite da Intrínseca – editora que lançou o livro originalmente no Brasil – você pode ouvir toda a trilha (também disponível no Spotfy). A trilha reflete o ritmo da história – ora lento, ora tenso. A condução de Jean-Marc Vallée – diretor de O clube de compras de Dallas que rendeu o Oscar a Matthew McConaughey e Jared Leto – é muito competente e consciente. O diretor também comandará a adaptação de Objetos cortantes de Gillian Flynn – também já resenhada aqui no Poderoso – para a HBO (estréia prevista para 2018).

Discute-se a possibilidade de uma segunda temporada para Pequenas grandes mentiras, mas nada foi confirmado ainda. Esta temporada seria desenvolvida por Moriarty – que atuou como produtora executiva desta adaptação.

Pequenas grandes mentiras é uma história que importa porque a história de mulheres – contadas por elas – importam. São temas que precisam ser mais debatidos e tratados de maneira correta, sem vitimismo exacerbado mas trazendo a problemática para um padrão honesto em que todos podem assumir suas responsabilidades. Uma adaptação que melhorou a história original entregando uma série que em apenas 7 episódios acendeu debates importantes e necessários.

Postado em: Semana de Cinema
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2 Comentários em “Semana de Cinema – Pequenas grandes mentiras”


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Mariana Soto em 03.07.2018 às 11:53 Responder

Nicole Kidman demonstra todo seu talento com um papel muito difícil e cheio de dor. A séries de drama são os meus preferidos, mas Big Little Lies se tornou no meu série preferida. Sua historia é muito fácil de entender e os atrices podem transmitir todas as suas emoções. Na minha opinião, Sharp Objects serái um dos mehores series de tv que será lançado. O ritmo é bom e consegue nos prender desde o princípio. O série superou as minhas expectativas, o ritmo da historia nos captura a todo o momento. Esta série conta uma história extraordinária.

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Patricia em 04.07.2018 às 11:43 Responder

Estou super animada para Sharp Objects!!! 😀


 

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