Semana de Cinema – Pra frente, Brasil
por Gabriel
em 26/04/14

Nota:

Pra frente, Brasil

E vamos lá, fechar esta semana de cinema com mais uma referência à ditadura brasileira. O ano era 1982 e os militares ainda não tinham saído do poder; o regime já diminuía a repressão, a abertura já havia começado, mas ainda não era inteligente mexer com alguns interesses. Roberto Farias, o diretor da obra, havia sido presidente da Embrafilme durante a ditadura, uma estatal que produzia e distribuía obras cinematográficas. E resolveu fazer um longa “ficcional” sobre aquela mesma ditadura que ainda se arrastava.

Um regime que censurava obras de arte desde 1964 não poderia deixar passar tão fácil uma obra sobre si próprio, mesmo que a abertura política já tivesse começado. Sendo assim, Pra frente, Brasil foi censurado no ano de seu lançamento e provocou a queda do diretor da Embrafilme à época, Celso Amorim (que em anos recentes viria a ser diplomata e posteriormente Ministro da Defesa). Mas conseguiu a sua liberação completa em fevereiro de 1983, sem cortes.

Pra frente, Brasil é também o nome de uma canção ufanista criada em 1970 para apoiar a seleção brasileira. O título cai como uma luva para o filme, que se passa na mesma época e lida exatamente com o regime ditatorial que vigorava no Brasil durante o torneio. Trata-se de uma ficção, porém todos os aspectos são perfeitamente verossímeis e retratam situações que encontram paralelos óbvios na história oficial.

Somos apresentados a um Brasil que vibra com a Copa do Mundo de 1970, enquanto prisioneiros políticos (envolvidos ou não com qualquer tipo de resistência) são torturados nos porões do regime. Jofre, um trabalhador de classe média vivido por Reginaldo Faria, vive uma vida pacata. Seu irmão, Miguel, vivido por Antônio Fagundes, tem o mesmo cotidiano. Mariana, vivida por Elizabeth Savalla e amada por Miguel, participa da luta armada contra o regime.

Jofre desaparece um dia, após dividir um táxi com um guerrilheiro. Seu irmão tenta encontra-lo pelos meios legais, sem sucesso e sem nenhuma pista. Ao receber Mariana em sua casa, ferida, Miguel descobre que existe um grupo repressivo patrocinado por empresários. O filme traça um paralelo incrível neste ponto com o documentário Cidadão Boilesen, que já resenhei anteriormente. O próprio assassinato de Boilesen aparece representado na película.

Pra frente, Brasil utiliza diversas locações, tem cenas de ação bem filmadas para a sua época, atuações de nomes brasileiros de peso e um roteiro absurdamente corajoso para 0 seu tempo. A trilha sonora de músicas da copa de 1970 combinadas ao som das narrações dos jogos e dos gols brasileiros dá o tom exato do clima durante aqueles dias, retratando o contexto como poucos. A apresentação da ditadura brasileira como realmente foi, uma ditadura civil-militar e baseada na repressão, é algo que ainda hoje seria considerado corajoso. Em 1982, em pleno final do regime, é de se aplaudir de pé. Trata-se de um filme recomendado a qualquer brasileiro e que deveria ser obrigatório em aulas de história.

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