Semana de Cinema – Sobral: O homem que não tinha preço
por Patricia
em 25/10/14

Nota:

Sobral-O-Homem-que-Não-Tinha-Preço-cartaz

“Em Abril de 84, a Ditadura Militar completou 20 anos. Eu tinha 16, o AI-5 também. Quase uma condenação isso. Uma geração inteira condenada ao silêncio e à ignorância.”

Assim começa o documentário Sobral – O Homem que não tinha preço. Com imagem belíssimas da campanha Diretas Já, com ruas e mais ruas cheias de gente exigindo votar. No palanque, um velhinho que parecia muito frágil conclamava o primeiro artigo da Constitução da época – e um dos parágrafos mais bonitos do documento – “Todo o poder emana do povo” e emendou, “e em seu nome deve ser exercido”.  Não poderia deixar de ser um discurso de um advogado.

É aqui que somos apresentados a Heráclito Fontoura Sobral Pinto, um dos maiores juristas do país desde aquela época. Ele combateu não uma, mas DUAS Ditaduras. Nascido em 1893, viveu sob Vargas e sob os militares.

Ele ficou mais conhecido na época por sua defesa a Luis Carlos Pestes quando este foi preso pelos militares. Sem discutir vertentes políticas, Sobral defendeu com afinco. Quando viu que seu cliente – junto com o amigo Berger – estavam sendo espancados – ele decidiu fazer uma petição inédita: que o juiz permitisse que os presos fossem tratados dentro da lei de proteção aos animais. Isso já seria um passo acima do que acontecia.

Prestes, marxista e Sobral, católico fervoroso, viraram amigos.

Sem medo de falar contra a autoridade, ele era conhecido por escrever cartas e mais cartas para Ministros, membros do Governo e presos políticos tratando do assunto de se cumprir a lei, de se defender o que era certo. Em uma carta que ele escreveu para um preso político, ele dizia que o havia defendido com tudo o que podia, mas que discordava muito de sua posição política. Sobral passou a ser conhecido como um árduo defensor das justiça independente da orientação política.

Me lembrou uma frase famosa atribuída a Voltaire (mas há controvérsias) que é mais ou menos como: “Eu discordo do que você diz, mas vou defender até a morte seu direito de dizê-lo.” Sobral parece ter levado isso a toda potência, o que diz muito sobre o tipo de pessoa que ele era. Um outro exemplo bom, é que em 1955, Sobral, membro do UDN, defendeu o direito de outro partido, o PSD de Juscelino Kubitschek, de escolher quem quisesse para concorrer à Presidência sem que os militares interviessem. Seu próprio partido o rechaçou. Onde já se viu alguém colocar justiça acima de interesses partidários?

Mais além, Sobral apoiou o movimento militar de tomar o Governo em 64. Porém ele esperava, como muitos brasileiros, que os militares devolvessem o Governo para o povo depois de retirar Jango e quando percebeu que isso não aconteceria, ele levantou-se contra o novo sistema. Apesar de ser conservador, defendeu mais revolucionários presos do que se pode imaginar. “Eu considero o desastre do Brasil a proclamação da República pelos militares. Os militares tendo proclamado a República julgaram-se donos da República e nunca aceitaram não ser os donos da República.”

Preso no auge de seus 75 anos e reconhecido por todos no país e idoso, os militares não podiam simplesmente fazer com que o jurista sumisse. Rapidamente, Sobral começou a irritar os militares porque fazia discursos contra o Governo no meio da prisão.

Comecei a assistir esse filme sem saber muito sobre Sobral Pinto. As entrevistas com familiares e personagens históricos – como Zuenir Ventura – ajudam a montar o cenário com o qual Sobral lutou a vida toda quase. Há trechos de entrevistas com o próprio Sobral retirada de arquivos de diversas fontes. Os entrevistados são interessantes, mas a figura de Sobral é o que dá o tom. A maneira firme como ele fala sobre suas crenças é impressionante para alguém de sua idade. Claramente, esse foi um homem que fez muito pelas leis brasileiras. Não é daqueles filmes de chorar, fala-se pouco de verdade sobre a Ditadura em si. O foco é esse personagem tão carismático que merece ser tema de música, e foi. Dei quatro doses de café mais pela figura de Sobral do que pela produção do filme em si, que é bem simples, mas objetiva.

Em abril desse ano, o Poderoso “comemorou” os 50 anos do Golpe com uma série de resenhas de livros e documentários sobre o tema. Esse é um tema que, pessoalmente, pretendo trazer para cá anualmente. Não com uma série de resenhas, mas um livro ou outro que abordem o assunto. Aguardem!

Postado em: Semana de Cinema
Tags:

2 Comentários em “Semana de Cinema – Sobral: O homem que não tinha preço”


Avatar
Rodrigo José Saraiva em 20.05.2019 às 14:32 Responder

O ano do nascimento de Sobral seria 1893, e não 1983 como esta no texto…

Avatar
Patricia em 20.05.2019 às 19:08 Responder

Verdade! Erro de digitação. Texto corrigido. Obrigada por avisar. =)


 

Comentar