Semana de cinema – V de vingança
por Patricia
em 28/06/13

Nota:

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A Inglaterra vive uma forma de ditadura estranha e mundo está em um cenário distópico devastador. Evey sai de casa fora do horário permitido e é atacada por 3 homens do Governo que querem lhe dar uma lição pela “transgressão”.  Entra em cena um mascarado que a salva dos 3 com imensa facilidade e ainda recita poesia.

Ele se apresenta, entre outras coisas, como “um vestígio do vox populi que não existe mais” – ou seja, ele representa a população que perdeu a voz – e a convida para assistir um concerto. O concerto envolve a explosão da estátua que fica sobre o Old Bailey – Tribunal Central. O Governo imediatamente começa as investigações e Evey e V estão ligados de maneira irrefutável para a polícia.

Quando a polícia chega na estação de televisão em que Evey trabalha, V toma conta da programação e coloca no ar um vídeo para fazer as pessoas pensarem sobre os problemas do país: “Mas se procuram um culpado, vocês deveriam olhar no espelho.” No fim, ele convoca a população a participar no ano seguinte de uma comemoração inesquecível do 5 de Novembro – data em que se “comemora” a tentativa fracassada de Guy Fawkes de explodir o Parlamento em 1605.

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Aos poucos, somos apresentados à história de V. Mas muito lentamente – contrariando o ritmo do filme. Personagens importantes da sociedade – ligados por uma situação macabra – começam a morrer. V defende que a violência pode ser usada para o bem e segue seu plano de se vingar das pessoas que destruíram seu passado mas, inadvertidamente, criaram um algoz.

Com isso V revela uma linha de corrupção que vai do Governo ao clero e que, agora, ele deseja limpar. As armas do Governo são o medo e, como sempre, a mídia.

Por qualquer lado que você analise, o filme é uma aula de política. Enquanto a ideologia parece tomar a dianteira com frases de efeito, vemos também o que acontece quando ela é levada ao extremo. A idéia de explodir o Parlamento em um ato terrorista é visto como a única saída para que o país se livre das ervas daninhas que trabalham ali, assustando a classe política. Isso pode ser verdade.

A truculência do regime que vemos no filme não é nada diferente do que muitos países – inclusive o Brasil – já experimentaram (e ainda experimentam de vez em quando). O medo que o sistema sente de pessoas que ganham consciência de seu poder sempre foi a base de respostas fortes demais e, muitas vezes, desnecessárias. É o que vemos na cena em que um policial mata uma criança só por ter se assustado com a máscara do V que ela usava.

E é por isso que é tão importante que Evey perca o medo antes da luta final. A tortura a que é submetida serve para blindá-la do medo das consequências do que ela precisa fazer. Mas não se engane. Ainda é tortura.

É muito interessante ver como Guy Fawkes se transformou em um modelo de luta contra o sistema sendo que sua intenção principal não era melhorar o sistema e, sim, destruí-lo. De fato, Fawkes queria instituir uma monarquia católica na Inglaterra. Mais além, me impressiona que as pessoas não entendam que terrorismo e tortura dos dois lados não perde o significado. A distinção que muitos fazem é que sua ideologia o movia a agir contra as forças opressoras e não contra inocentes. Isso pode eximí-lo, em partes. Mas temos que tomar cuidado com o debate sobre tortura e terrorismo porque qualquer tipo de esvaziamento do seu real sentido, pode servir para os ambos os lados redimindo atitudes que não podem – e não devem – ser redimidas.

O maior triunfo de V, no entanto, é espalhar a dúvida sobre o sistema por dentro dele mesmo: o policial que o investiga começa a pesquisar assuntos que trazem à tona o tiro fatal no Governo. E, mais profundamente, ele faz com que as pessoas duvidem e questionem as decisões desse Governo dando início à ruptura da linha de poder.

No fim, V representa aquela vontadezinha que todos temos de vez em quando de “socar um político” ao ler notícias sobre desvios de verbas em escolas, em merendas, ambulâncias, coronéis milionários e população miséravel e tudo o mais que se tornou tão comum. É compreensível a proliferação das máscaras inspiradas no filme como forma de usar na cara a indignação. Se é que todos os que a usam, realmente compreendem seu significado.

Como o próprio filme nos ensina, não é do homem – ou do personagem – que temos que lembrar. Mas da idéia e do poder que ela traz.

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