Semana de cinema – Vício inerente
por Bruno Lisboa
em 21/02/17

Nota:

 

Paul Thomas Anderson faz parte da geração de diretores safra anos 90 que souberam prestar homenagem a velha guarda do cinema, mas de maneira muito pessoal e com alta qualidade. Quem já assistiu a algum de seus filmes como MagnóliaSangre Negro O mestre (obras que sempre figuram em listas de melhores filmes de todos os tempos) sabe do que estou falando. Nesse sentido Vício inerente não é diferente.

Lançado em 2014, Vício inerente é adaptação do livro de mesmo nome de Thomas Pynchon de 2009. O autor tem como característica obras que primam pela complexidade e a densidade, com temas ligados ao universo da música e ciências. Alheio a esta dificuldade, Anderson conseguiu fazer o inimaginável: adaptar a épica narrativa de 369 páginas num longa de duas horas e meia.

Transitando entre os gêneros drama e a comédia, o longa tem em seu enredo, como figura central, o excêntrico Doc (Joaquim Phoenix), um detetive particular maconheiro, que inicia uma investigação devido ao desaparecimento de sua ex-namorada Shasta (Katherine Waterson) e o seu atual amante, Michael Z. “Mickey” Wolfmann (Eric Roberts) . A partir desta premissa o enredo ganha em detalhamento, a medida em que investigação avança, devido a entrada de vários personagens secundários e subtramas que levam ao espectador a um emaranhado de situações ligadas ao tráfico de drogas e a corrupção policial.

Ambientado nos anos 70, a cidade de Los Angeles é registrada em belíssima fotografia. Para além da composição do cenário, a retratação da década segue um formato fidedigno ao período, pois retrata de maneira pontual o idealismo da época que vivia a decadência do movimento hippie e do american dream, o racismo exacerbado e a popularidade de pensamentos relacionados a astrologia. A trilha, como não poderia deixar de ser, é composta por incursões instrumentais de Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead e antigo parceiro de Anderson, e canções atemporais de Neil Young e Can.

Na ala das atuações para além da habitual entrega de Joaquim Phoenix aos seus personagens, são louváveis as presenças de Benício Del Toro,  Katherine Waterson e Josh Brolin, que faz de seu Christian F. “Bigfoot” Bjornsen um hilário e caricato detetive linha dura que sonha ter a sua vida nos cinemas ou nas telas de TV.

É inevitável comparar Vício Inerente a Chinatown, pois tal como o filme de Roman Polanski, Anderson promove uma renovação do já desgastado gênero noir (que tem no cerne trama policiais “enfumaçadas”) já que condensa doses equilibradas de hermetismo, surrealismo e comédia, resultando num trabalho dominado pela personalidade deste grande diretor dos nossos tempos.

 

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