Sobre – A redoma de vidro e autoficção
por Patricia
em 27/04/18

Nota:

Sylvia Plath já passou pelo Poderoso com seus diários e, também, com a primeira resenha de A redoma de vidro feita pelo Gabriel láááá em 2015.

No enredo temos Esther Greenwood quer ser poeta. Ainda jovem, ela passou em um concurso para ficar um mês em Nova York em algo como um estágio em uma prestigiosa revista de moda. De família pobre, Esther se encanta com a possibilidade de que pode conquistar algo por si própria. Com uma bolsa para uma faculdade e com seus escritos rendendo alguns prêmios ela está caminhando em direção ao seu sonho. Ou, pelo menos, é o que ela pensa.

Minha heroína seria eu, só que disfarçada. Ela se chamaria Elaine. Elaine. Contei as letras com meus dedos. Esther também tinha seis letras. Parecia um bom sinal.

Depois de retornar para casa e descobrir que não havia sido aceita para um curso de escrita, que queria muito, Esther tem que lidar com sua mãe, com quem não tem um bom relacionamento, e com os questionamentos que começam a surgir sobre suas escolhas. Com dificuldade para lidar com o que vê, o que quer e como chegar ao que acredita ser seu destino, ela parece entrar em um redemoinho de apatia.

Com dificuldade para dormir, ler e comer ela pede à médica da família pílulas que possam ajudar. Nesse momento, ela também começa a buscar maneiras de se matar. Apesar de não verbalizar isso a ninguém, a médica a encaminha para um psicólogo que, por sua vez, receita terapia de choque.

Aqui é quase como se começasse uma nova história. O que vimos até agora foi uma jovem que vivia uma vida quase comum, sem grandes acontecimentos, recebendo paqueras indesejadas na rua, buscando seu caminho. De repente, temos a história de uma mulher presa em um hospital psiquiátrico sem saber exatamente o que acontece ao seu redor.

Tem muita coisa em “A redoma de vidro” que mostra como Plath analisava a sociedade ao seu redor: diversos questionamentos sobre casamento, sexualidade feminina, carreira, família…Esther se afoga no que quer ser e no que acredita que os outros esperam dela. Ela quer ser poeta, mas sua mãe insiste que ela estude taquigrafia para “ter uma profissão depois que se formar”. Ela ouve que o casamento deve ser entre duas pessoas castas e perde o chão quando descobre que um de seus pretendentes não é mais virgem.

Esther não parece ter sequer uma conexão real – uma amiga de verdade. Sua solidão a leva, muitas vezes, a se comparar com outras mulheres e tentar encontrar em si algo que valha a pena.

A obra em si é uma leitura entravada no começo, mas que deslancha quando temos uma visão real do que está acontecendo com a personagem. E mesmo que tenhamos a visão de um narrador externo, ainda assim não sabemos exatamente tudo o que acontece com Esther – Plath não permite que o leitor seja onipresente, tirando-nos a possibilidade de quebrar a redoma na qual a protagonista sente que habita. Vemos tudo através dos olhos da personagem que não é exatamente uma narradora confiável. Até mesmo suas – poucas – emoções não aparecem totalmente para o leitor.

***

Ler esta obra depois de ter lido Os diários de Plath me deixou com uma pergunta constante: seria esta uma autoficção?

Quando o livro foi publicado, o termo ainda não havia sido cunhado e, por isso, a obra foi vendida como romance. Aliás, como se pode notar na capa da edição mais recente, o é até hoje. A ideia é que a autoficção combine a ficção com autobiografia. Há muito debate se, de alguma forma, a maioria das obras não seria autoficção. Afinal, sabemos que muitos autores colocam partes de sua vida nos personagens que criam como Hemingway quando fala de guerra ou John Grisham com suas histórias de advogados.

E essa talvez seja uma obra que levanta tanto essa questão porque muitas pessoas conhecem Plath apenas a partir de sua morte, ou seja, sabem mais de sua vida do que de sua obra. Dá o que pensar sobre autoras como Elena Ferrante que preferem escrever sob um pseudônimo e não revelar sua verdadeira identidade. Há uma real dificuldade de manter a ficção afastada da realidade quando notamos o intenso escrutínio ao qual são submetidas as figuras públicas. Ferrante, mesmo expressando claramente seu desejo de se manter anônima, foi alvo de uma investigação meticulosa na Itália em que um jornalista dizia ter pistas sobre quem a autora realmente é.

As linhas entre o público e o privado têm se tornado cada vez mais difusas. Se antes os autores tinham a oportunidade de escolher quando, como e se gostariam de misturar tudo em seus enredos, isso parece se tornar cada vez mais complicado porque é fácil hoje em dia pesquisarmos sobre a vida dos autores e criarmos paralelos entre eles e seus personagens. Tudo, ou quase tudo, está disponível na distância de um click.

Podemos ir além nessa linha: não teria a autobiografia, também, pitadas de ficção? A vida de uma pessoa não passa de um apanhado de percepções dos acontecimentos que vivenciou sendo possível levantar todo um debate sobre o que é real e o que é percebido. Aliás, sei pessoalmente de ao menos duas pessoas que publicaram autobiografias com relatos de coisas que não aconteceram com elas, mas que foram contadas a elas e ali, no livro que apresentam as histórias de suas vidas, estão coisas que aconteceram de verdade com outros. E quem vai dizer o contrário?

Quando falamos de analisar uma obra de autoficção, o maior problema é: como julgamos a vida de uma pessoa? Quando foi lançado na Europa, “A redoma de vidro” recebeu críticas mornas, ainda que algumas positivas. Com a morte de Plath e o lançamento nos EUA, anos depois e já com o paralelo entre a vida da autora e da obra traçados, o livro entrou em diversas listas de melhores obras. Como, então, é possível escapar de analisar o livro somente pelo seu valor literário se já sabemos tanto do que o inspirou? Há uma carga inevitável que a leitura da obra trás consigo que só se ampliou ao descobrirmos detalhes da vida da autora.

Lendo os diários, para mim, fica claro que “A redoma de vidro” não é o melhor que Plath poderia produzir. Ele trás um gostinho de seus questionamentos principais, mas havia muito mais a explorar. Talvez a própria Plath superasse esta obra, se tivesse a oportunidade.

Em uma entrevista de 62, ao ser questionada se sua inspiração vem de livros ou de sua vida pessoal, Plath responde que muito vem de suas experiências e completa: “Acredito que um autor deve poder manipular experiências, até as mais terríveis como loucura, ser torturado […] porque acredito que a experiência pessoal é importante mas não deve ser uma caixa ou uma experiência narcisista.” É intrigante que ela tenha mencionado que suas experiências podem moldar seu trabalho mas que ela também acredita na construção da ficção como forma de sair da caixa do “eu” constante.

Como obra pura de ficção, “A redoma de vidro” é falho. Esther não é exatamente uma personagem interessante e não desperta empatia por ter muito pouca por outros também. Como relato de uma vida, a obra ganha um pouco mais de peso ao sabermos da conclusão fatal da obra na vida real (na obra, o final fica aberto). Seu valor histórico, me parece, é maior que seu valor como ficção.

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