Sobre Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo
por Patricia
em 07/10/16

Nota:

imagem-aspx

Esta é uma obra que não diz a que veio logo no começo. Aristóteles e Dante são dois garotos normais de 15 anos. Viraram amigos em uma daquelas situações inusitadas de conhecer alguém sem nenhuma pretensão quando uma pessoa se dispõe a ajudar a outra sem ter nenhuma promessa de troca: Aristóteles queria aprender a nadar e Dante se propôs a ensiná-lo.

Acompanhamos o desenvolvimento dessa amizade e ambos os personagens descobrindo algo sobre o mundo e sobre si mesmos. O desenvolvimento de ambos tanto no que tange o relacionamento com a família quanto um com o outro é o cerne da obra. Ambos são descendentes de mexicanos e carregam alguns estigmas dessa “latinidade”.

Um dos componentes da história é o amor homossexual. Dante acaba se entendendo como gay até que relativamente cedo e não parece ter vergonha de assumir quem é. Ponto para ele. E Dante enfrenta o que a maioria das pessoas que não se encaixa no padrão acaba enfrentando: o medo de ser rechaçado pela família e pela sociedade, de não poder mais ter amigos do mesmo gênero (o que impacta em certo ponto sua amizade com Aristóteles), da violência que vem atrelada bastante à questão sexualidade. Aristóteles enfrenta alguns segredos de família e tem um temperamento que o mantém isolado dos demais. Quando ele entende o que escondia até de si mesmo, já estamos no final do livro e isso garante o final feliz padrão de histórias desse tipo.

Como estamos falando de homossexualismo, Dante acaba por ser espancado por quatro “machos” enquanto beijava um cara com quem estava saindo. É aqui que a história se torna mais real e toca em um ponto crucial da importância de obras sobre o tema.

Ao não disfarçar a realidade e torná-la fofa e bonitinha, Sáenz está mostrando a todos que preferem não se informar ou se esquivam das notícias quase cotidianas de violência homofóbica, que o amor LGBT não é uma história de amor como outra qualquer porque existem forças sociais que se intrometem o tempo todo.

Esse é um ponto importante para falar sobre este livro e sobre a literatura jovem.

É importante também ressaltar que a literatura não vai salvar o mundo. É uma bela idéia, mas cada obra impacta as pessoas sob contextos diferentes e, com isso, interpretações variam de pessoa para pessoa. Porém, tal como não podemos fingir que não existem na vida real, certos assuntos deveria ser retratados na literatura de maneira natural. No mínimo, para que ela possa espelhar o mundo como ele é de fato. Digo isso como uma pessoa a quem os pais deram um livro chamado “De onde vêm os bebês?” quando quiseram iniciar a conversa sobre sexo. Portanto, sou uma pessoa propensa desde muito cedo a acreditar que a literatura e os livros têm poderes reais.

E é por isso que acredito, sim, que literatura jovem tem um papel crucial na formação de novos leitores. E mais importante do que publicar esse gênero, é escolher obras que falam a esse novo leitor de uma maneira direta, objetiva sem tratar o leitor como um ignorante e que retratam assuntos condizentes com a realidade que ele enfrenta.

O que mais vemos por aí são autores condescendentes, que tratam o jovem leitor como alguém a ser ensinado. E quando digo jovem digo tanto de idade quanto de experiência literária. Há, porém, autores como Benjamin Alire Sáenz que contam sua história de maneira real e quase intuitiva. Com cuidado e sem criar esteriótipos, ele nos entrega um romance adolescente como qualquer outro. O que poderia ser algo extremamente irritante quando falado de literatura cis-padrão, mas é um valor importante para histórias LGBT. Amor deveria ser essencialmente isso: igual para todo mundo. Infelizmente, essa não é a realidade e é importante que os autores que decidem escrever sobre isso não se esquivem dela.

Claro, podem existir, sim, romances LGBT fofos e Crepúsculizados à exaustão (sigo na minha novena para que essa onda acabe logo). Mas não podemos deixar de falar do que pode dar errado em uma tentativa de encobrir o que acontece de fato. O plot-twist que descobrimos no final não muda o poder e o potencial da história. O que Sáenz faz muito bem é não tratar como anomalia o que não deveria ser uma anomalia.

Isso vale para toda literatura contemporânea, acredito. Muitas autoras, como Lianne Moriarty, por exemplo, escrevem histórias sobre mulhers abusadas, às margens da sociedade às vezes, narradas por elas mesmas. Nessas histórias, a mulher não é nem heroína, nem vilã: ela é real. E isso acrescenta um fator imensurável no estabelecimento de laços verdadeiros entre leitor e livro.

Cabe dizer que não estou exaltando a qualidade desses livros quanto a seus enredos. Apenas acredito que vale mencionar a importância da decisão desses autores de escreverem sobre tais assuntos sem pintar com cores novas o que já está descascado e feio. Aristóteles e Dante, por exemplo, não é uma obra perfeita. Tem alguns clichês que poderiam ter sido evitados e alguns diálogos extensos e, sinceramente, irritantes que se retirados do livro, a história não perderia nada.

Ainda que a obra de Sáenz não seja a primeira e, esperamos, a última a abordar esse tema (e que também não seja um primor literário no sentido de construção de personagens e enredo), vale reconhecer seu papel dentro da literatura jovem e o papel crucial dessa literatura na formação de novos leitores.

Postado em: Sem categoria
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Sobre Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo”


 

Comentar