Sobre O sexo mais rico
por Patricia
em 11/11/16

Nota:

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Ano passado, li o Faça Acontecer da COO do Facebook, Sheryl Sandberg e desde então, tenho acompanhando diversas discussões sobre a ascensão das mulheres no ambiente de trabalho e como isso tem mudado a base estrutural de basicamente tudo o que conhecemos. Liza Mundy fala exatamente sobre isso em seu livro O sexo mais rico – lançado no Brasil em 2013. Presente, passado e futuro são analisados para tentar determinar como chegamos aqui e, talvez, para onde estamos indo como sociedade.

Entre o movimento feminista da década de 60 e a geração (mais) livre nascida na década de 80, temos toda uma geração de mulheres que ficou em um meio termo um pouco injusto. Nascidas na própria década de 60, elas entraram no mercado de trabalho quando as mulheres tinham oportunidades – ainda que não as melhores. Sem o avanço da consciência masculina de ajudar mais em casa e carrregando o fardo de ter uma carreira e fazer tudo dar certo, muitas acabaram caindo em antigos esteriótipos.

No texto que fiz para De mim já nem se lembra, conversei com meu pai sobre alguns pontos de sua vida que me pareciam ter similaridades com a obra. O sexo mais rico, por sua vez, me lembrou de outra parte da família: minha mãe – que começou a trabalhar aos 14 anos e aos 25 já estava casada com duas filhas. Nunca houve um questionamento na minha casa de por quê minha mãe trabalhava ou se era realmente necessário. Era simplesmente a realidade e fim.

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Mundy passa a primeira parte da obra analisando a história das mulheres no mundo: do discurso de submissão que a Igreja apregoava, das revoluções industriais que mudaram o papel do trabalhador, a inversão de papéis que as guerras proporcionaram, até o peso do dinheiro na maneira como cada gênero se portava no casamento. É uma parte com muitos dados e informações interessantes.

Estou lendo um livro sobre mulheres, carreiras e etc. Você começou a trabalhar cedo…Como foi sua primeira experiência de trabalho?

M: Comecei a trabalhar aos 14 anos, por necessidade, numa gráfica e eu ajudava na produção de sacolas promocionais. 

Você sentiu pressão para casar cedo?

M: A vida com pai e mãe era muito difícil, muito…apertada. Na época, a gente achava que casando mais cedo poderia ter mais liberdade. Poderia cuidar da sua vida, ter o que não tinha. De certa forma existia, sim, uma pressão. 

O que você teria feito de diferente antes de casar e ter filhos?

M: Teria estudado mais e casado mais tarde.

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O tom do livro tem um quê de matéria jornalística, com a autora escrevendo em sua zona de conforto. Além dos dados, ela também entrevistou diversos casais sobre suas situações atuais e como lidavam com as mudanças que já aconteciam em suas respectivas vidas. Mundy falou com homens que assumiram a casa enquanto suas esposas construíam suas carreiras e com mulheres que buscavam um parceiro mas que já tinham uma vida totalmente independente. O casamento, segundo a autora, ganha novos contornos à medida que as mulheres não precisam mais fazer barganhas para encontrar um marido.

 Foi fácil equilibrar filhos e trabalho?

M: Não achei tão difícil. Achamos uma pessoa de confiança que me ajudava em casa enquanto eu trabalhava. Então isso deixou as coisas um pouco mais fáceis. 

Como foi a decisão de continuar trabalhando depois de casar? Você se sentiu forçada a isso?

M: Não. Continuei trabalhando por necessidade nossa mesmo, de ter um espaço da gente, um ambiente melhor para morar, de comer melhor porque nossa situação na época era difícil. A gente achava que com cada um tendo sua vida, ela seria mais tranquila.

O que você achava das suas amigas que optaram por ficar em casa depois de casar?

M:  Eu via que elas aceitavam ou optavam por isso porque achavam mesmo que era esse seu papel. Se o marido tinha uma situação estável, então ela ficava em casa e tudo bem. Mas não era meu caso. Nós resolvemos que íamos conquistar tudo juntos. Mas não tenho uma visão negativa de mulheres que decidem ficar em casa. Cada um busca o que é melhor para si. 

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A segunda parte do livro é destinada a mostrar a oposição de alguns homens a esse novo contexto – mas a autora afirma que eles serão cada vez mais parte de uma minoria. Ainda assim, os relacionamentos podem ficar abalados quando o marido sente que perde o controle da importante questão do dinheiro. Há um debate contínuo sobre masculinidade que se inicia com a mudança de paradigma do papel da mulher na família de geração para geração.

A autora descobriu que muitas mulheres casavam justamente como opção para ter uma outra vida…

M: A minha situação foi essa também. Quando encontrei um homem que achei que era o ideal para minha vida, resolvemos casar. Ele não tinha onde morar (morava numa pensão porque era de outra cidade) e eu estava passando uma situação delicada em casa então resolvemos casar e começar do zero, juntos. Cada um buscando o que precisava.

O que você vê de diferente entre as gerações anteriores e posteriores à sua?

M: Vejo que essa geração se preocupa mais com o lado profissional e com a carreira do que com família e filhos. Elas estão tendo filhos mais tarde. Elas estão em outra fase, estão preocupadas realmente em ter sucesso, carreira e em ser bem-sucedidas. Na minha época não tinha muito isso de carreira. A gente trabalhava para ajudar o marido e casava cedo. A geração da minha mãe já foi mais complicada. Muita coisa que tinha na minha época, na dela não tinha. Aos 19 anos ela teve que fugir para casar porque a família queria escolher com quem ela deveria casar. 

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A conclusão de Mundy é um tanto otimista. Ela acredita que não há retorno nesse movimento e que isso pode ter diversos pontos positivos (que ultrapassam os negativos). A transformação que vemos agora deve impactar permanentemente não apenas como as mulheres tomam decisões sobre suas carreiras mas também como elas escolhem seus parceiros. E caberá aos homens se adaptarem a esse momento. Ou não.

No livro, a jornalista entrevista várias mulheres que não só ganham mais do que o marido mas que trabalham enquanto o marido cuida dos filhos. É bem diferente e tem a questão da culpa. Você sentia alguma culpa por trabalhar e não estar em casa?

M: Não. Muito pelo contrário. Me sentia feliz de poder ajudar. Aliás, por algum tempo, no início do casamento eu ganhava mais do que meu marido. Tanto é que, várias vezes, ele comentou que só tinha chegado até aqui porque eu sempre trabalhei e sempre ajudei. Isso me deixava muito feliz.

No geral, o livro poderia ter menos páginas sem perder muito. A quantidade de dados, por vezes, é demais e acaba causando certa confusão. Porém, a autora consegue ir desemaranhando as idéias e entrega uma obra que dá o que pensar e rende uma conversa mais do que necessária. E atrasada.

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