Semana de Cinema – Sociedade dos poetas mortos
por Thiago
em 27/08/14

Nota:

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Quero aproveitar a semana de cinema aqui do Poderoso pra fazer uma pequena homenagem ao falecido Robin Williams , um ator que marcou minha infância, pré adolescência e adolescência, e não isso não é papo.

Nunca vou esquecer alguns de seus filmes, afinal os vejo com certa frequência, como “Bom dia Vietnã”, “Gaiola das Loucas”, “Gênio indomável”, “O pescador de ilusões”, “Pacht Adams”, “Uma babá quase perfeita”, “Amor além da vida” e o filme resenhado aqui, claro.

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Creio que “Sociedade dos poetas mortos” foi responsável pela formação de um número significativo de professores, e eu me encontro no meio desta turba, mesmo se tratando de um filme de 1989 e eu nascido em 1984, óbvio que vi e entendi o filme quando estava mais velho e não com 5 anos de idade.

Bom, caso exista alguém que nunca viu este filme segue uma breve sinopse:

Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno (Robin Williams) se torna o novo professor de literatura, mas logo seus métodos de incentivar os alunos a pensarem por si mesmos cria um choque com a ortodoxa direção do colégio, principalmente quando ele fala aos seus alunos sobre a “Sociedade dos Poetas Mortos”.

Para compreendermos o filme temos que contextualizar a época retratada e como este período trabalhava a educação. Através disso podemos entender a trama inicial e o choque do tradicional com o novo e libertador. O personagem de Robin Williams, o professor  John Keating, ou se forem mais ousados podem chama-lo de Capitão, é o caos na ordem pedagógica da tradição de uma escola antiguada que tinha como pilares:  tradição, disciplina, honra e excelência.

 

Sei que muitos entendem este filme como uma obra que mostra alunos que foram inspirados a gostar de estudar, a gostar de literatura, mas será que é só isso?

Em primeiro lugar este filme é um feliz encontro de talentos, como o diretor Peter Weir (que também dirigiu o fantástico “Show de Truman”), o roteirista Tom Schulman e Robin Williams, não consigo imaginar outro ator pra este papel, simplesmente não consigo. O carisma que o personagem emanava foi facilmente somado ao carisma do ator, somos assim capazes de acreditar em na proposta do filme, nas falas complexas que contém uma diversidade de citações da literatura.

Este não é um filme que me marca apenas por mostrar um professor incrível, claro que eu tenho vontade de subir na mesa e rasgar livros, mas é muito mais que isso, é sobre inspirar, sobre ser professor e principalmente acerca da  relação de aprendizagem. Este filme tem a capacidade de puxar as pessoas para  suas paixões, seja a do professor de ensinar, seja a do aluno interpretado por Robert Sean Leonard (o Dr. Wilson do seriado House) de atuar, ele nos leva de encontro as nossas paixões, tendo a poesia, a arte, a linguagem como instrumento.

Aqui o professor apresenta um mundo novo aos seus alunos através da literatura e de uma relação diferente que os mesmos poderiam ter, sendo indivíduos autônomos, donos do destino, assim como a Sociedade dos poetas mortos, um momento catártico travestido de clube de leitura.

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A discussão que este filme nos traz é muito maior do que o gostar de estudar ou de ser ou não um professor que inspira seus alunos. Cada vez que revejo este filme questões novas me aparecem, dentre elas: qual a função da escola? Qual a função do professor? Até onde vai o trabalho educacional da escola? Qual a importância dos pais na educação dos alunos, ou melhor na vida dos seus filhos?

O personagem John Keating tenta tirar seus alunos do marasmo, das correntes do tradicionalismo que lhes traziam apenas frustração. Afinal, acabamos por personificar o que Wilhelm Reich, médico, cientista e psicanalista do inicio do século passado, chama de Zé Ninguém, no livro Escuta Zé Ninguém, escrito em 1945. Se preferido, o termo pode ser compreendido como “homem comum”, ou “homem médio”, um homem que por opção não é mais livre, um homem que aceita a opressão e que se lança a pergunta: “Quem sou eu para ter opinião própria, para decidir da minha própria vida e ter o mundo por meu?” (REICH,1974,p.23). Através dos Zés Ninguém que insistem em nos tomar por morada, perdemos a capacidade de enxergar, e de enxergar o que de nós está mais próximo, que, no caso, somos nós mesmos. Reich ao procurar entender esse “homem comum”, esse “homem médio” diz: “… olhando prudentemente em torno, entendi o que te escraviza:” ÉS TU TEU PRÓPRIO NEGREIRO” . (REICH, 1974, p.24). Vale a pena ressaltar que esse homem não é alguém que necessariamente tem um baixo poder aquisitivo. O Zé Ninguém não faz distinções de credo, cor, idade ou classe social. Ele pode ser encontrado em várias localidades. Ele é a opinião pública, ele é o povo, o senso comum, a consciência social. No filme ele pode ser visto nos pais dos alunos, nos outros professores e na direção da escola.

Acabamos, então, por nos tornar tão moldados por nossas formações (não importando qual seja a área do saber), perdendo assim, aquela bela ingenuidade de olhar. Um olhar que não conhece os obstáculos que as teorias existentes levantam contra a elaboração de uma nova visão. A palavra formação, usada no parágrafo anterior no plural, traz em si, a carga etimológica negativa da palavra formar. Nos levando a ideia de uma “fôrma” anteriormente pronta, que limita e condiciona nosso crescimento educacional. Essa condição previamente disposta se dá até o momento que conseguimos transbordar a “fôrma” e ganhar rumos livres, no vasto universo do conhecimento.

Há tempos a educação se mostra, de diversos modos, principalmente em países em desenvolvimento como o nosso. (Chamo aqui a atenção, para o uso feito no texto da palavra educação, pois esta não se refere simplesmente às escolas, e sim ao processo educativo em diversos contextos).

Como então, no cenário educacional brasileiro, e de países em situação próxima, conseguir transbordar tal fôrma? A fôrma do educar, na qual fomos moldados, e que ainda se faz presente nas escolas e na educação de um modo mais amplo, é o fruto de uma construção histórica. Tal perspectiva não pode ser ignorada, pois ela está ligada às dimensões do aprender a conhecer e do aprender a fazer. Através disso, podemos pensar a realidade em seu contexto, seu conjunto, e não como um apanhado de saberes fragmentados. Desse modo o tempo presente assume uma posição crítica em relação ao tempo passado, sem se encontrar estanque, como mera repetição, no intuito de se buscar um futuro diferente.

Esmiuçando um pouco mais o termo educar, pode-se perceber que o prefixo ex, encontrado em ex-ducere, é o mesmo que integra as palavras “expor” e “expelir”.

Ex é adjunto de lugar, e quer dizer donde. Indica o lugar que alguém se afasta, o para fora de. Como na caverna de Platão, onde é necessário sair, para assim poder ver além do mundo das sombras, na qual se limitava a visão possível dentro da caverna.

Enquanto ex é um adjunto de lugar, ducere é um verbo latino que quer dizer conduzir, levar.

As palavras trazem em si, em sua junção de prefixos e sufixos, um significado muito maior do que aquele no qual elas são por nós utilizadas. Entretanto, para que as palavras possam ser compreendidas em seu real significado, é necessário que se preste atenção ao que nos referimos quando as empregamos.

Através dessas idéias, é possível entender melhor o que quero dizer, quando uso os termos educação e educar. A palavra “ensino”, ou “a arte de transmitir os conhecimentos a um aluno, de modo que ele os compreenda e assimile…” (MORIN, 2005, p.11), tem uma expressão restrita em relação a proposta da pesquisa. A educação é uma palavra mais forte e que carrega em si um sentido mais amplo.

Na Grécia antiga, ao se referir a educação, utilizava-se a palavra anatrofi, do verbo anatrofein, que quer dizer alimentar-se, a nutrição necessária para o crescimento. O prefixo ana significa acrescentar, acentuar, e o radical trofi, alimento. Através dessa palavra, porque não dizer que a educação também é nosso alimento, e é através dele que crescemos, que nos nutrimos. Contudo, é preciso prestar atenção no que comemos. Um corpo mal nutrido é um corpo fraco, enfermo. A boa alimentação é a base da vida, mas o que vem a ser uma boa alimentação? Para se comer bem é necessário estar atento para apreciar os sabores, os molhos [1]que temperam e dão graça à nutrição. Costuma-se dizer que o cozinheiro de molhos, o maître saucier, é o mago da cozinha. Na realidade sua arte é como a do prestidigitador, e de certo, como o educador, baseia-se na aplicação inteligente de técnicas básicas, mais do que na intervenção de forças misteriosas. Fazer bons molhos não chega a ser um milagre. Alguns são simples e rápidos, exigindo apenas umas colheradas de manteiga derretida, ou os sucos de um assado. Outros, mais ambiciosos, requerem diversos ingredientes e horas em fogo baixo, mas retribuem com uma maravilhosa combinação de sabores.

Pensar acerca dessa questão significa pensar o problema do ensino. Refletir sobre a pedagogia da resposta e a pedagogia da pergunta. Nota-se que nos discurssos citados acima, a pedagogia da resposta, explicada anteriormente, é ideologia marcante. E entre essas duas maneiras de ensinar e ver o mundo, qual nos é mais proveitosa e por que? Sei sim, que o ser humano é um ser que anseia por respostas, mas o que se faz nas escolas não é apenas uma tentativa de respondê-las. É também uma forma _não sei se proposital ou não_ de minar a faculdade mais comum e imprescindível no ser humano: a curiosidade.

Pensar sobre o educar, como o filme nos propõe, é pensar sobre nós mesmos, sobre o que fizemos e fazemos da nossa vida, porém não fique só pensando, ouça o Capitão e aproveite o dia, Carpe Diem!!!

[1] O equivalente da palavra molho em francês é sauce; em inglês também se diz sauce, em italiano salsa. Esses termos derivam do latim salsus, que quer dizer salgado. A razão disso é que os molhos romanos, eram preparados, em sua maioria, com um condimento de gosto forte e salgado chamado liquamen, feito de peixe.

 

 

Obs: gostaria de recomendar a edição do rapaduracast, podcast do site Cinema com Rapadura sobre este filme: Rapaduracast 309

Aproveito também para recomendar mais um rapaduracast, desta vez um especial sobre a carreira do Robin Williams: Rapaduracast 386

 

 

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